Interesses em jogo

O desenvolvimento de um novo medicamento leva tempo e dinheiro: pode exigir de 10 a 15 anos de pesquisa e envolver um investimento superior a US$ 1 bilhão, segundo dados da indústria americana, citados no livro “A dinâmica do sistema produtivo da saúde”, escrito por um grupo de pesquisadores liderados por Carlos Gadelha. Para Laís Costa, uma das coautoras da obra, o desenvolvimento tecnológico em saúde é crucial para a autonomia da ciência, para a economia e para a soberania do sistema nacional de saúde. “No Brasil, infelizmente, não temos um parque produtivo da saúde que seja competitivo, inovador”, analisa. Segundo ela, os riscos sociais são inúmeros, pois não existe autonomia para desenvolver trajetórias tecnológicas que respondam às necessidades da população brasileira.

O chamado “complexo econômico e industrial da saúde” é formado por um conjunto de setores com atividades produtivas, que envolvem desde a pesquisa e o desenvolvimento de inovações até a prestação de serviços. Nele estão incluídas as indústrias farmacêuticas, de vacinas, de hemoderivados e reagentes para diagnóstico, as fábricas de equipamentos e materiais (como órteses e próteses) e os prestadores de serviços. Para Laís, é preciso um olhar sistêmico sobre esse setor importante da economia brasileira, levando em conta os interesses a que ele atende e quais seus possíveis benefícios para a sociedade. “Infelizmente, o que se observa hoje é a concentração da grande maioria dos recursos de pesquisa e desenvolvimento em saúde para atender a necessidade de uma minoria da população mundial”, reflete.

A inovação em saúde não é neutra, adverte a pesquisadora. De acordo com os interesses envolvidos, ela pode beneficiar o conjunto da população ou apenas um grupo minoritário, atraído pelo lucro com a venda de produtos e serviços. “Países que dominam estas tecnologias ditam as trajetórias tecnológicas a serem adotadas”, explica. Ela cita o exemplo de inovações extremamente caras e sem efetividade comprovada, que servem apenas ao interesse mercadológico. O mesmo acontece com a utilização de recursos diagnósticos em situações em que bastaria um exame clínico. “O uso de tecnologias cuja necessidade ou benefício não seja evidente tende a ‘raptar’ recursos de outros pontos do sistema, prejudicando a população e acentuando as desigualdades”, acrescenta. Por isso, é essencial que a política de ciência, tecnologia e inovação em saúde esteja a serviço do SUS e da promoção da saúde e da qualidade de vida da população.

 

chp-peter

Corte nos investimentos em pesquisa prejudica desenvolvimento do país,
avaliam especialistas. Imagem: Peter Ilicciev

 

Superar a dependência

A produção de vacinas é um dos setores chaves no complexo industrial da saúde. “O Programa Nacional de Imunização (PNI) é um dos mais completos do mundo, não tem nenhum outro país em desenvolvimento que tenha um programa como esse”, afirma Akira Homma, presidente do Conselho de Bio-Manguinhos, que em 2015 foi responsável por cerca de um terço do mercado público nacional de vacinas. O Instituto de Imunobiológicos da Fiocruz e outros laboratórios públicos, como o Instituto Butantã em São Paulo, são responsáveis pela produção de vacinas distribuídas gratuitamente para a população, de acordo com o calendário oficial de vacinação, estabelecido pelo Ministério da Saúde. Porém, desenvolver e produzir esses produtos é uma atividade cada vez mais cara. Em um mercado que se torna mais competitivo, vale uma regra: quem não cresce pode desaparecer. “Quem não acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico e incorporar produtos novos, está fadado a fechar suas portas”, completa Akira.

De acordo com o pesquisador, a produção dos chamados imunobiológicos é uma atividade multifacetada, que tem vários componentes e etapas, e deve ser planejada a longo prazo. “A produção de imunobiológicos vai se tornando cada vez mais cara, mais onerosa”, constata. O principal desafio nessa área é dotar o país de condições de suprir as necessidades de saúde da população sem sofrer com as inconstâncias do mercado. Para isso, a meta é desenvolver produtos autóctones (isto é, pesquisados e produzidos exclusivamente com tecnologia nacional). “Nós queremos ter produtos autóctones, desenvolvidos inteiramente no país. Mas não tivemos nenhum produto assim para uso humano”, afirma Akira, ao citar o caso da vacina contra a febre manqueira, desenvolvida por Alcides Godoi, que salvou a criação de gado brasileiro no início do século 20. “De lá para cá nós participamos do desenvolvimento produtivo, mas não tivemos uma vacina que nós tivéssemos desenvolvido inteiramente sozinhos”, acrescenta.

A explicação para esse atraso está no fato de que o investimento na área de ciência e tecnologia é ainda “muito pequeno”, segundo o pesquisador. “O investimento está aquém das necessidades, precisaria multiplicar por 10, 20, talvez 100 vezes em relação ao se que realiza hoje para pensar em ter um produto legitimamente autóctone daqui a dez anos”, afirma Akira. Ele ainda destaca que essa é uma atividade de retorno demorado, que exige investimentos de longo prazo, por isso não pode ficar restrita à iniciativa privada, que tem outros tipos de interesses além do benefício social. “Essa atividade funciona com acúmulo de conhecimentos, formação de massa crítica, de infraestrutura para essa finalidade. Precisa realmente de grandes investimentos para se pensar em um futuro promissor”, considera.