Como funciona o Programa Nacional de Imunizações?

Por prevenção, é recomendado que crianças sejam vacinadas logo cedo - assim que o sistema imune estiver desenvolvido o suficiente para responder a substâncias particulares. Dependendo do tipo de vacina, é necessário tomar mais de uma dose, e em diferentes etapas da vida, para adquirir a “imunidade completa”.

Com isso em mente, muitos governos estabelecem um calendário de vacinação que orienta os cidadãos sobre quando, como e por que vacinar seus filhos. 

No Brasil, esse calendário é estabelecido pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações), criado em 1973 pelo Ministério da Saúde e desde então responsável por organizar a política de vacinação da população brasileira no geral. 

Em 1980, o PNI organizou a primeira Campanha Nacional de Vacinação contra a poliomielite, com o objetivo de vacinar todas as crianças menores de cinco anos de idade em um único dia. O último caso da doença no país foi notificado nove anos mais tarde, na Paraíba.

O programa tem atualmente como meta a eliminação do sarampo e do tétano neonatal, além da redução da ocorrência de outras doenças como a difteria, coqueluche, tétano acidental, hepatite B, meningites, febre amarela, tuberculose, rubéola e caxumba. Recentemente, o PNI disponibilizou também um aplicativo que permite gerenciar cadernetas de vacinação cadastradas pelo usuário, além de fornecer informações sobre as vacinas do calendário e campanhas de vacinação sazonais. 

 

Por que existem pessoas que são contra as vacinas?

Contestações a vacinas existem desde que as primeiras campanhas para vacinação foram organizadas. Elas são feitas a partir de argumentos que evocam a ética, a efetividade e a segurança dessas substâncias.

No Brasil, um episódio épico nesse sentido marcou a primeira campanha de vacinação lançada pelo governo federal. Foi em 1904, no Rio de Janeiro, quando o Estado lançou uma campanha de vacinação obrigatória para combater a varíola.

O projeto, no entanto, foi aplicado de forma autoritária: com pouca informação dada à população, agentes sanitários invadiram casas e vacinaram pessoas à força, provocando uma grande reação popular, que entrou para a história nacional como a “Revolta da Vacina”. Boa parte da população não sabia do que se tratava a substância e temia ser infectado pelo vírus da doença a partir da injeção.

Críticos contemporâneos questionam a forma como as vacinas são desenvolvidas, por exemplo, ou argumentam contra a obrigatoriedade da vacinação, que atacaria liberdades individuais. Há ainda a alegação de que o número excessivo de substâncias que devem ser tomadas seja prejudicial e dê origem a vírus e bactérias mais resistentes.

Cientistas afirmam que o desconhecimento sobre o tema e a existência de inúmeros boatos e informações sem embasamento científico sejam responsáveis por um grande número de ocorrências de doenças que poderiam ser evitadas, caso as instruções sobre vacinação fossem seguidas.

No Brasil, o movimento antivacina também tem seus representantes. Uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde em 2014 constatou que a média de vacinação no país era de 81,4%, enquanto que entre os mais ricos era de 76,3%.

Por se tratar da parcela da sociedade com renda mais alta, a diferença não se dá devido à falta de acesso, mas porque muitos pais se recusam a vacinar seus filhos, por diversos motivos. Entre eles estão o excesso de vacinas no calendário oficial (eles questionam se é necessário injetar tantas substâncias nas crianças) e a falta de confiança no sistema nacional.

Para especialistas, a escolha pode ter sido responsável pelo surgimento de casos de sarampo na Vila Madalena, bairro nobre de São Paulo, em 2011.

O grande número de vacinas no calendário oficial também preocupa alguns pais, como a editora Natália Coltri Fernandes. “Falei isso para o meu pediatra e ele disse que podíamos esperar, observar as demandas do corpo [da minha filha], o funcionamento de seu organismo”, disse ela ao Nexo.

Escolas, públicas e privadas, exigem a carteirinha de vacinação para realizar a matrícula das crianças. Mães e pais na mesma situação de Fernandes podem fazer a matrícula caso tenham um atestado do médico justificando a ausência das vacinas.

 

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Mulher recebe vacina BCG no Distrito Federal em 2014. Na época, faltavam
doses nos postos de saúde. Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

No mundo: o papel da OMS

A OMS (Organização Mundial da Saúde), órgão vinculado à ONU (Organização das Nações Unidas), desempenha papel fundamental no combate a doenças no nível internacional. Em particular, em países subdesenvolvidos. 

Em 2012, a OMS aprovou o Plano de Ação Global de Vacinas, estratégia debatida e firmada pelos 194 países-membros da organização, para ser implementada durante os dez anos seguintes. Entre as metas está apresentar novas e melhores vacinas e tecnologias, fortalecer a imunização rotineira e melhorar o controle de doenças bem conhecidas. 

O plano, porém, é criticado por algumas organizações, como a Médicos Sem Fronteiras, por ignorar particularidades de alguns países, como a dificuldade de acesso a postos de saúde.

"Concentrar-se nas novas vacinas sem impulsionar os sistemas existentes não é uma estratégia que irá beneficiar a maioria das crianças. Não podemos simplesmente direcionar esforços para novas criações enquanto estivermos falhando em garantir os direitos básicos",criticou a médica Estrella Lasry no site da organização. 

Lasry cita, entre outros pontos, a falta de profissionais treinados nesses países para aplicarem injeções, o custo de transporte para populações que vivem em áreas remotas e o fornecimento de energia elétrica instável para manter as substâncias devidamente refrigeradas. “Atualmente, é baixo o investimento em vacinas adaptadas, acessíveis às pessoas de maneira mais simples, e o fato do novo Plano de Ação não ter dado mais atenção a isto é algo muito preocupante”, disse a médica.

Em 2015,  a OMS alertou que as metas globais de vacinação estavam"fora dos trilhos". Segundo a agência, uma em cada cinco crianças no mundo não recebe as vacinas básicas.

Um relatório divulgado pela agência naquele ano mostrou que os medicamentos não estão sendo entregues de forma equitativa ou confiável. Apenas um dos seis objetivos previstos para 2015 avançou devidamente. Entre os que falharam, estava a eliminação do sarampoem três regiões - muitos países enfrentaram epidemias da doença nos meses anteriores ao relatório.

Ainda assim, a OMS calcula que as vacinações atualmente evitam entre 2 e 3 milhões de mortes por ano.