Quando as vacinas foram criadas?

Os primeiros vestígios do uso de vacinas, com a introdução de versões atenuadas de vírus no corpo das pessoas, estão relacionados ao combate à varíola no século 10, na China. Porém, a teoria era aplicada de forma bem diferente: os chineses trituravam cascas de feridas provocadas pela doença e assopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas.

Foi em 1798 que o termo “vacina” surgiu pela primeira vez, graças a uma experiência do médico e cientista inglês Edward Jenner. Ele ouviu relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola, pois já haviam tido a varíola bovina, de menor impacto no corpo humano. Ele então introduziu os dois vírus em um garoto de oito anos e percebeu que o rumor tinha de fato uma base científica. A palavra vacina deriva justamente de Variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina.

Em 1881, quando o cientista francês Louis Pasteur começou a desenvolver a segunda geração de vacinas, voltadas a combater a cólera aviária e o carbúnculo, ele sugeriu o termo para batizar sua recém-criada substância, em homenagem a Jenner.

A partir de então, as vacinas começaram a ser produzidas em massa e se tornaram um dos principais elementos para o combate a doenças no mundo.

 

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O cientista francês Louis Pasteur em desenho do artista
Albert Edelfelt. Imagem: Albert Edelfelt / Wiki Commons

 

Quem produz vacinas?

No Brasil, as vacinas distribuídas em postos de saúde são produzidas por laboratórios nacionais, internacionais ou por institutos especializados ligados ao poder público, como o Instituto Butantan (do governo do Estado de São Paulo) ou a Bio-Manguinhos (do governo federal).

A decisão sobre quais vacinas serão produzidas é feita a partir do planejamento anual da CGPNI (Coordenação Geral do Programa Nacional de Imunizações), em parceria com os órgãos produtores. São levados em conta, por exemplo, a incidência de determinada doença, os agentes envolvidos nela e a capacidade de produção dos laboratórios.

Essas instituições enviam então os produtos a centrais de distribuição, órgãos governamentais responsáveis por embalar, armazenar na temperatura adequada e distribuí-los por todo o país.

No caso da gripe, por exemplo, cujo vírus muda constantemente, o processo de formulação da vacina é feito sob outra lógica. “Durante todo um ano, países do mundo ficam analisando os vírus que são coletados. Duas vezes por ano, a OMS (Organização Mundial da Saúde) define quais vão compor a vacina do ano seguinte”, diz o médico Expedito José de Albuquerque Luna, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde entre 2003 e 2007.

As vacinas são definidas no outono de cada hemisfério, já que os surtos de gripe geralmente acontecem no inverno. A partir de então, tem início uma corrida contra o tempo para desenvolvê-las. A corrida também acontece no caso de epidemias, como a do H1N1, que aumentam a procura pela substância e, consequentemente, a sua produção. No mercado internacional, destacam-se as produtoras multinacionais GSK, Merck, Sanofi e Pfizer.

 

Quais são as vacinas mais esperadas atualmente?

Entre as vacinas esperadas para serem fornecidas à população nos próximos anos estão as contra a dengue e o HIV.

Parte do obstáculo para que essas vacinas sejam desenvolvidas é político: essas doenças prevalecem principalmente em países pobres e não há interesses econômicos, por parte da indústria farmacêutica, para voltar seus esforços a elas.

No Brasil, ao menos quatro institutos trabalham para desenvolver a vacina para a dengue: o grupo farmacêutico privado francês Sanofi, o instituto Butantan, ligado ao governo paulista, a empresa farmacêutica japonesa Takeda Pharmaceutical Company e o instituto Bio-Manguinhos, ligado ao governo federal.

A Sanofi já teve sua vacina aprovada no país, pela Anvisa, para uso pediátrico e adulto, dos 9 aos 45 anos de idade. O governo prevê que elas chegarão às clínicas privadas no valor de R$ 400 a dose - sendo que serão necessárias três doses para garantir a efetividade. O valor, similar ao da vacina contra HPV, reduz a possibilidade de que ela seja incorporada ao SUS.

O segundo processo mais avançado é o do Instituto Butantan. Ele desenvolve a vacina em parceria com  o National Institutes of Health, o Instituto Adolfo Lutz e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Atualmente, o projeto está na fase de ensaios clínicos, basicamente,  testes necessários para a aplicação e produção em larga escala.  Espera-se que o produto final, que será aplicado em apenas uma dose, esteja disponível em 2018.

O desenvolvimento da vacina contra HIV também está em andamento.Em março, a empresa francesa Biosantech apresentou resultados preliminares de uma vacina experimental contra o vírus causador da Aids. A vacina pode ser usada, no futuro, junto com o coquetel antirretroviral.

Outros institutos de pesquisa pelo mundo também têm se dedicado à questão. Recentemente, dois estudos, um publicado pela "Science" e outro pela “Nature”, mostraram que anticorpos potentes, retirados de pacientes que têm uma resistência maior,  podem ser clonados e usados para combater o vírus. 

Em 2014, recursos globais investidos na pesquisa de vacinas contra o HIV chegaram a US$ 841 milhões. Em maio de 2016, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) fez um apelo por mais recursos e colaboração entre governos, cientistas e o setor privado para as pesquisas feitas nesse sentido.

 

Qual o caminho das vacinas até a população?

Para que uma vacina seja aplicada em um paciente, seja ela produzida aqui ou fora, ela passa por um longo processo que envolve compra, avaliação, liberação e distribuição pelo país. No Brasil, o Ministério da Saúde é o órgão responsável pela compra e distribuição de todas as unidades que serão utilizadas no sistema público de saúde.

As vacinas passam por uma avaliação feita pelo INCQS (Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde) e, após liberação, são enviadas para os Estados. Em casos de substâncias importadas, elas devem ser liberadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após passarem pela alfândega.

O governo envia então, mensalmente, as vacinas aos Estados, que são responsáveis por distribuí-las aos municípios, de acordo com as necessidades locais. São 40 mil UBS (Unidades Básica de Saúde) em todo o país que recebem os imunobiológicos.

Para definir o número de doses enviadas a um Estado, as unidades da federação devem notificar previamente o governo sobre a necessidade local, levando em consideração o tamanho do público-alvo, a situação epidemiológica (a distribuição da doença na população) e os estoques federal e estaduais.

O Ministério da Saúde oferta gratuitamente no SUS 17 tipos de vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS),  para todas as faixas etárias. São 400 milhões de doses de imunobiológicos disponibilizadas anualmente, para combater mais de 20 doenças. O investimento da pasta na oferta de vacinas cresceu 225%, passando de R$ 1,2 bilhão, em 2010, para R$ 3,9 bilhões, este ano de 2016.

O sistema nacional é elogiado por médicos, dada a dimensão territorial do país. Ao mesmo tempo, gargalos na rede de distribuição fazem com que as substâncias muitas vezes não cheguem ao destino ou cheguem já vencidas. Problemas alfandegários, escassez mundial, alta da procura devido a epidemias e modificação das substâncias estão entre os principais problemas de distribuição no Brasil. Outro motivo para o atraso na entrega de vacinas no país é a demora na adaptação de certas substâncias aos padrões estabelecidos internacionalmente.

Por vezes, quando a procura é maior que a oferta, seja porque o número de doses encomendadas não foi recebido ou por outra questão pontual, a vacina é restrita a grupos de risco: recém-nascidos, profissionais com risco de contato com sangue, pacientes que farão hemodiálise etc.

 

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Postos de saúde abrem para vacinar crianças menores de 5 anos
contra a poliomielite, em 2012. Imagem: José Cruz / Agência Brasil