O Rio de Janeiro da primeira década do século XX foi palco de iniciativas como a vacinação obrigatória contra a varíola, a criação das brigadas de mata-mosquito e o extermínio da população de ratos.

Três dessas músicas estão digitalizadas e disponíveis para audição. Elas retratam tais iniciativas e são mais um indicador da desconfiança de que as medidas adotadas por Oswaldo Cruz poderiam gerar resultados satisfatórios.

Ressalte-se que nos arquivos de áudio aqui disponíveis, há trechos em que se perde parte da letra – fruto tanto das deficiências técnicas de gravações ocorridas com tecnologia rudimentar quanto do armazenamento mais que secular, nem sempre em condições adequadas. Essas eventuais imperfeições não afetam o valor histórico e cultural das gravações.

‘Vão meter ferro no boi’

A população carioca não acreditou na eficácia da vacinação obrigatória contra a varíola e se sublevou contra a medida, gerando ao menos 23 mortos e cerca de mil presos na “Revolta da Vacina”.

A – falta de – disposição da população em colaborar é retratada em Vacina obrigatória, interpretada por Mario Pinheiro. Não se encontrou registro exato sobre a data em que houve a gravação da melodia, supondo-se que seja anterior à Revolta, já que não faz menção aos embates entre forças de segurança e população sublevada.

marchinha-interna II

 

Vacina obrigatória

Intérprete: Mario Pinheiro

Ouça a música e acompanhe a letra

Anda o povo acelerado com horror a palmatória
Por causa dessa lambança da vacina obrigatória
Os manatas da sabença estão teimando desta vez
Em meter o ferro a pulso bem no braço do freguês

E os doutores da higiene vão deitando logo a mão
Sem saber se o sujeito quer levar o ferro ou não
Seja moço ou seja velho, ou mulatinha que tem visgo
Homem sério, tudo, tudo leva ferro, que é servido.

Bem no braço do Zé povo, chega um tipo e logo vai
Enfiando aquele troço, a lanceta e tudo o mais
Mas a lei manda que o povo e o coitado do freguês
Vá gemendo na vacina ou então vá pro xadrez

Contam um caso sucedido que o negócio tudo logra
O doutor foi lá em casa vacinar a minha sogra
A velha como uma bicha teve um riso contrafeito
E peitou com o doutor bem na cara do sujeito

E quando o ferro foi entrando fez a velha uma careta
Teve mesmo um chilique eu vi a coisa preta
Mas eu disse pro doutor: vá furando até o cabo
Que a senhora minha sogra é levada dos diabos

Tem um casal de namorados que eu conheço a triste sina
Houve forte rebuliço só por causa da vacina
A moça que era inocente e um pouquinho adiantada
Quando foi para pretoria já estava vacinada

Eu não nesse arrastão sem fazer o meu barulho
Os doutores da ciência terão mesmo que ir no embrulho
Não embarco na canoa que a vacina me persegue
Vão meter ferro no boi ou nos diabos que os carregue.