A Fiocruz é uma instituição que, além de contribuir diretamente com a saúde pública, considera muito importante a comunicação tanto para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, quanto para a compreensão a respeito da saúde privada. Por meio da imprensa e redes sociais, é possível acompanhar a política de saúde, conhecer serviços e produtos que a ciência e o mercado disponibilizam a todo momento. Mas, a principal pergunta é: como toda essa informação chega à sociedade? O objetivo dos profissionais de comunicação e saúde é estabelecer uma relação efetiva entre as instâncias governamentais e a população.

Com esta discussão em plena efervescência, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Canal Saúde/Fiocruz promoveram, no último dia 28, o seminário “Conass Debate – Que saúde você vê?”. Esta é a quarta edição do evento, realizado pelo Conass desde abril de 2013, e, desta vez, foi sediado na Fiocruz, na Tenda da Ciência, reunindo autoridades, secretários de saúde de todo o país, além de profissionais e especialistas na área de comunicação e saúde.

O intuito do Conass e do Canal Saúde foi refletir sobre as formas como a saúde (pública ou privada) é comunicada. A imagem do SUS na mídia, a relação entre os gestores de saúde e a imprensa, o cenário político da comunicação no Brasil e seus impactos sobre a saúde brasileira foram os principais pontos discutidos no seminário.

Na parte da manhã, a mesa de abertura contou com as presenças do ministro da Saúde, Arthur Chioro, do vice-presidente do Conass do Paraná, Michele Caputo Neto, vice-presidente do Conass do Rio de Janeiro, Marcos Esner Musafir, presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha e do superintendente do Canal Saúde, Arlindo Fábio Gómez de Sousa.

O debate posterior teve um formato ágil e diferente, ouvindo as sugestões e ideias dos participantes da plateia, assim como os internautas que assistiam ao evento em tempo real nos sites do Conass e Canal Saúde.

Já na parte da tarde, o debate teve a participação da repórter Cláudia Colucci, da Folha de São Paulo; a pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) Inesita Araújo; a produtora de programas de saúde da Rede Globo Fabiane Leite; e o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Murilo César Ramos. Os debates foram mediados pelo apresentador do Canal Saúde, Renato Farias.

 

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"Precisaremos ter maior capacidade de desenvolver uma política de comunicação social
em saúde", afirma Arthur Chioro. Imagem: Gabriella Ponte - Ascom / Bio-Manguinhos

 

Mesa de abertura

Marcos Esner Musafir começou falando que é preciso tratar de forma minuciosa as críticas dadas aos serviços do SUS e que é necessário lembrar dos feitos positivos. “É muito importante melhorar a imagem das suas atividades diárias em todo o país, conquistas que conseguimos no decorrer dos anos, diminuição e até erradicação de doenças no país, parceria com outros países em busca de novas tecnologias, entre outros”.

Em sua apresentação, Arlindo Gómez lembrou dos 20 anos do Canal Saúde, comemorado no dia 12/12, e pediu a concessão de um canal aberto que trate somente de saúde, destacando a importância que isso teria para uma melhor comunicação quanto às informações da área. Ele também lembrou das lutas desde a origem do Conass e Conasems, desde a 8ª Conferência Nacional de Saúde, até a última, que foi a 14ª. “A existência de um canal aberto é de extrema relevância, para se falar de prevenção e promoção da saúde. A comunicação é um elemento fundamental e estruturante para a área de saúde e para qualquer relação humana. Nós do Canal Saúde tentamos dar contribuição neste sentido, construindo cidadania como é o nosso lema. Acreditamos no direito à informação e queremos que cada brasileiro saiba quais são os serviços e medicamentos que tem direito, que a população se aproprie do SUS e mostre sua cara, sua opinião. Esse evento faz parte de um processo de fortalecimento da comunicação com as novas secretarias de saúde a partir dos mandatos que começam em 2015”, explicou o superintendente do Canal Saúde.

Paulo Gadelha reforçou que a comunicação está na raiz da Fundação, desde quando se constituiu e que está na própria história da saúde pública brasileira as descobertas cientificas no início do século XX. Na época, ocorreu a revolta da vacina por falta de conhecimento da população sobre a importância dos imunizantes. “A partir dessas experiências, precisamos repensar na comunicação como ponto central na consciência sanitária, na expressão do campo da pesquisa e no acesso ao conhecimento. É necessário descobrir novos instrumentos de comunicação para fazer valer os princípios do SUS. Para isto, a Fiocruz construiu o portal Pense SUS (INSERIR LINK). Estamos nos preparando para a 15ª Conferência Nacional de Saúde, que será um momento de ressignificação de enfrentar os desafios do SUS. Destaco que é um processo de longo prazo estruturar melhorias no campo da comunicação na saúde púbica”, ressaltou o presidente da Fiocruz.

Michele Caputo Neto lembrou que Adib Jatene, que faleceu há poucas semanas, foi o primeiro presidente do Conass e, desde aquela época, a luta já era grande. “A comunicação sempre foi vista como um instrumento fundamental para fortalecer o SUS. Ampliar esta discussão é ótimo pois geralmente são com os mesmos atores internos e agora está sendo debatido com os profissionais de comunicação. O SUS foi inovador com todas as suas características, diretrizes, conquistas, bons indicadores, mas, infelizmente, o que fica para a mídia são os nós que ainda não desatamos e as dificuldades que ainda temos que enfrentar. É importante para a governabilidade dar conta da grande fila de atendimento, medicamentos e serviços melhores, tendo a população como os principais ouvintes”, disse.

Por último, o ministro Arthur Chioro apontou que fez questão de estar presente na mesa de abertura do evento por considerar este um problema importante para ser debatido e que merece grande reflexão.  “Essa discussão pode ter abordagens que poderiam ser feitas de duas maneiras: a disputa pelo imaginário da população pelo SUS e focar em que precisamos de mais serviços, medicamentos ou nos focar em ter uma vida mais saudável? Prevenção é o que deve ser trabalhado. Devemos ter ousadia nas novas formas de comunicação. A estrutura tripartite do SUS e que é bem unificada deve ser utilizada para avançar na produção desta linha de pensamento e atuação. Mídias regionais são pouco utilizadas, são mais as nacionais que falam sobre saúde. Precisamos trabalhar melhor as novas mídias, que são mais rápidas e democráticas; aprimorar o diálogo; ouvir mais a população; fazer mais aplicativos; explorar mais as plataformas digitais; pensar numa política nacional de comunicação e saúde e financiar essas estratégias; fazer valer os princípios do SUS; e pensar em novos dispositivos de se conectar com a sociedade. Há um esforço, que não é de hoje, de sair do pensamento da medicalização para hábitos saudáveis, do autocuidado e da autodeterminação”, enumerou.

Para completar, ele resume o papel da comunicação neste cenário. “Hoje, é impossível pensar em uma sociedade democrática, com acesso à informação, que não tenha uma política de comunicação. Obviamente, a comunicação não vai substituir a relação entre o usuário e o profissional de saúde. Mas, ela tem um papel importantíssimo na mediação e na construção de valores. Atualmente, tem-se uma percepção muito clara de que se queremos avançar na construção de um Sistema de Saúde mais qualificado, humanizado e ter uma sociedade mais saudável, vamos precisar ter maior capacidade de desenvolver uma política de comunicação social em saúde que esteja sintonizada com essas necessidades. Para isso, é necessário que tanto a grande mídia quanto as alternativas se apropriem deste discurso”, concluiu o ministro.

 

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Durante o Conass Debate, foram filmadas duas edições do Unidiversidade com
a participação da plateia. Imagem: Gabriella Ponte - Ascom / Bio-Manguinhos

 

Programa Que saúde você vê?

O Canal Saúde, durante o evento, filmou duas edições do programa Unidiversidade, que busca costurar um discurso plural sobre o tema com um formato ágil e diferente do que se costuma ver na televisão. Participaram da gravação membros da plateia, contribuindo com o debate e com a discussão a respeito da comunicação em Saúde, além dos internautas que estavam acompanhando o evento em tempo real.

A plateia começou comparando a imagem do SUS, como era no início de sua implantação e como é atualmente, e concluiu que não mudou muito. As pessoas acham que, com certeza, a visão positiva deve ser trabalhada, focando o acesso para todos e que as suas ações devem ser bem informadas. Eles acham que a população ainda não se vê dentro do SUS, tendo o sistema como um direito seu. Para isso, é preciso se apropriar de seus serviços e entender que sua gestão é complexa. Para eles, é nítido que são necessárias melhorias não só na área da saúde como também em sua comunicação. Concluindo, os participantes viram que tanto as duas áreas em questão não devem ser estigmatizadas e lembradas apenas por episódios específicos e sim pensadas como processos participativos e de melhoria contínua.

No segundo programa, diversos profissionais de comunicação e que trabalham na área de saúde discutiram que sentem dificuldade em como transmitir mensagens que não se restringem apenas em ocorrências de doenças e atendimentos ruins, que são os temas mais explorados pela mídia em geral. A dificuldade se dá não só na linguagem, que não deve ser técnica e sim informativa para toda a população, como também na escolha em si dos temas. A plateia lembrou que o SUS considera tudo saúde: educação, tratamento sanitário, moradia, família, entre outros fatores determinantes. Para eles, é com este enfoque que a comunicação deve ser direcionada. Esses profissionais querem se unir e fortalecer esta visão, mostrando matérias positivas, de qualidade de vida e bem-estar.

 

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Ao visitar o CIPBR, o ministro se comprometeu a voltar à Fiocruz.
Imagem: Bernardo Portella - Ascom / Bio-Manguinhos

 

Ministro visita Bio-Manguinhos

 

Aproveitando sua vinda à Fiocruz, o ministro Chioro visitou o Centro Integrado de Protótipos, Biofármacos e Reativos para diagnóstico (CIPBR), em Bio-Manguinhos. O empreendimento abrigará a primeira planta de protótipos da América Latina, preenchendo uma lacuna na cadeia de inovação do país. A planta de protótipos destina-se ao aumento de escala de produtos desenvolvidos em bancada e à fabricação de lotes para estudos clínicos. No local, serão produzidos, a princípio, os biofármacos alfapoetina e alfainterferona 2b, além de reativos para diagnóstico.

Além deste empreendimento, o ministro obteve mais detalhes sobre o crescimento institucional de Bio, com os novos campi em Santa Cruz (RJ) e Eusébio (CE). O diretor de Bio-Manguinhos, Artur Couto, reforçou a importância do papel do Instituto no cenário nacional e internacional na saúde pública. Chioro, por sua vez, se mostrou interessado no tema e se comprometeu a voltar à Fiocruz, realizando uma visita com foco no desenvolvimento tecnológico e nos investimentos em novos empreendimentos.

Toda a diretoria de Bio-Manguinhos acompanhou o ministro, além de Paulo Gadelha, o presidente do Conselho Político e Estratégico (CPE), Akira Homma, e o vice-presidente de Gestão e Desenvolvimento Institucional da Fiocruz, Pedro Barbosa.

Confira fotos do Conass e da visita na fanpage de Bio no Facebook.

 

Jornalista: Gabriella Ponte
Imagem da home: Gabriella Ponte - Ascom / Bio-Manguinhos

 

 

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