Uma das maiores apostas tecnológicas é o uso de estruturas nanométricas para aplicação das vacinas. Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, desenvolveram o nanopatch, uma espécie de band-aid de silicone de 1cm2 com milhares de ‘microagulhas’ 80 vezes mais finas que um fio de cabelo que, aplicadas sobre a pele, introduzem sem dor a vacina em pó debaixo da camada dérmica mais superficial.

No King’s College de Londres, Inglaterra, cientistas criaram um dispositivo de silicone semelhante, em forma de disco com minúsculas ‘agulhas’ de açúcar que se dissolvem quando inseridas na pele. Os dois adesivos estão sendo testados em animais com diferentes tipos de vacinas, por exemplo, contra gripe, poliomielite e herpes, além de candidatas a vacinas contra malária e HIV. O uso de adesivos requer doses menores de vacina e consegue uma resposta do sistema imune mais rápida e eficiente

Por enquanto, os resultados têm sido animadores. Segundo os cientistas, o uso dos adesivos requer doses menores de vacina e consegue uma resposta do sistema imune mais rápida e eficiente. “A injeção tradicional com seringa injeta a vacina dentro do músculo, que tem muito menos células do sistema imune que a pele”, diz Mark Kendall, responsável pela criação do nanopatch na Universidade de Queensland. “Em contraste, o nanopatch mira a vacina nas milhares de células de defesa da pele e nossos estudos com animais mostraram que essa abordagem desperta uma ação muito maior do sistema imune se comparada com a da injeção tradicional.”

O microbiólogo Marcos Freire, vice-diretor de desenvolvimento tecnológico de Bio-Manguinhos, órgão da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) responsável pela produção da vacinas no Brasil, lembra que, apesar de promissora, a vacinação intradérmica ainda precisa ser testada em humanos. “No desenvolvimento de uma vacina ou em qualquer alteração do procedimento de uso dela, são necessários ensaios clínicos”, diz. “Na ciência básica, se acredita muito no potencial das células da pele para uma resposta imune potencializada, mas isso tem que ser testado em humanos para descartar limitações biológicas e tecnológicas também.”

Ampliando velhos métodos

Existem ainda alternativas menos tecnológicas que já são usadas para aplicar alguns tipos de vacina e, em teoria, poderiam ser popularizadas e usadas no combate a outras doenças. Um exemplo é a vacina inalada, usada hoje apenas na imunização contra a gripe nos Estados Unidos. O químico Robert Sievers, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, já testa em humanos uma vacina contra o sarampo que, em vez de ser líquida, é em pó e aplicada por meio de inalação em uma bolsa de ar. O pesquisador também faz testes para adaptar para a forma inalada as atuais vacinas contra HPV e gripe.

Assim como as novas vacinas-adesivo, as vacinas inaladas reduzem o risco de contaminação, por não usarem seringas, e facilitam a aplicação. “O sarampo ainda é um grande desafio, pois faz milhares de mortes, muitas delas em países pobres”, diz Sievers. “Nesses países, infelizmente, tudo se reutiliza, inclusive agulhas. Com a vacina inalada não corremos o perigo de contaminação e ainda eliminamos a necessidade de pessoas treinadas para aplicar a dose.” 

Quem também é alvo de novos estudos são as vacinas orais, velhas conhecidas das crianças de todo o mundo desde a invenção da primeira vacina de gotas – contra a paralisia infantil na década de 1960 por Albert Sabin.  Na Universidade de Londres (Inglaterra), uma equipe liderada pelo biólogo Simon Cutting estuda a criação de uma vacina em forma de um filme solúvel que deve ser colocado debaixo da língua até dissolver e entrar na corrente sanguínea. A vacina, que está sendo testada em animais contra gripe, tétano e tuberculose, usa uma abordagem diferente: os antígenos são colocados dentro de esporos da bactéria não patogênicaBacillus subtili, encontrada em todo o nosso corpo.

Ainda na Inglaterra, na Universidade de Cambridge, pesquisadores também apostam nas bactérias para criar uma nova forma de vacina oral para combater a infecção porEscherichia coli, causa mais comum da diarreia.  Eles usam uma versão modificada da bactéria Salmonela enterica, que causa febre tifoide, para carregar proteínas da E. coli que, uma vez dentro do nosso corpo, desencadeiam a ação de defesa do sistema imune. A bactéria modificada é inserida em pílulas que resistem a variações de temperatura muito maiores que as suportadas pelas vacinas tradicionais. “Essa tecnologia é especialmente interessante para países quentes, onde a imunização em massa com agulhas e vacinas líquidas é problemática pelo risco de degradação da vacina”, explica o químico Nigel Slater, envolvido no desenvolvimento da vacina oral. “Bactérias secas são muito estáveis à temperatura ambiente.”


Futuro das vacinas

Para além da inexistência de dor, os maiores benefícios das novas formas de aplicação de vacinas são infraestruturais. Como ressaltam os pesquisadores, tanto as vacinas com a plataforma de adesivos de silicone, quanto as inaladas e as orais são mais simples de estocar, distribuir e aplicar.

As vacinas tradicionais em seringas são frágeis e precisam ser mantidas a temperaturas baixas e controladas para não perderem o efeito. Em 2010, por exemplo, a erupção do vulcão finlandês Eyjafjallaajokull interrompeu o trafego aéreo no norte da Europa e 15 milhões de doses de vacina contra paralisia infantil que seriam transportadas para o leste da África estragaram por falta de acondicionamento adequado. No Brasil, cortes de energia são frequentemente a causa da perda de estoques de vacina. Já as novas vacinas estão sendo desenvolvidas para suportar temperaturas de até 37 ºC.

Seria então o futuro das vacinas sem seringas? Para os cientistas essa parece ser uma tendência a ser seguida. “As vacinas passaram muitos anos sem muitas mudanças e recentemente têm passado por vários avanços”, diz Kendall. “Parece que a aplicação sem seringas, além de superar o problema da ‘agulhafobia’, oferece a melhor maneira de aumentar o alcance das vacinas. Esperamos um futuro de vacinas mais eficazes e de mais fácil armazenamento e distribuição.”

 

Fonte: Ciência Hoje | Texto: Sofia Moutinho 

 

 

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