O assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Dr. Akira Homma, participou do São Paulo Innovation Week para debater um tema urgente: como as agressões ao meio ambiente e as mudanças climáticas estão diretamente ligadas ao surgimento de novas epidemias. A edição de 2026 ocorreu nos dias 13, 14 e 15 de maio, sediada no Mercado Livre Arena Pacaembu e o campus da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). No painel "Ameaças invisíveis: o novo mapa das doenças infecciosas no mundo moderno", especialistas reforçaram que grandes crises de saúde, como a que vivemos recentemente com a covid-19, não acontecem por acaso, mas são o reflexo de ações humanas como o desmatamento e o aquecimento do planeta.
Dr. Akira explicou que, quando a temperatura média da Terra aumenta, o comportamento dos insetos e animais que transmitem doenças (os chamados vetores) muda drasticamente. Mosquitos começam a se espalhar por novas regiões antes pouco afetadas, levando vírus como mayaro e oropouche a mais pessoas. O especialista alertou ainda para a previsão de um fenômeno "super El Niño" entre 2026 e 2027, que trará eventos climáticos extremos e pode aumentar os casos de infecções e de doenças respiratórias e do coração. Ele citou também o hantavírus — que recentemente causou um surto em um navio de cruzeiro — como um perigo frequente, mas que muitas vezes deixa de ser contabilizado por falta de notificações.
Diante desse cenário desafiador, a principal saída apontada foi o conceito de "Saúde Única". Essa abordagem ensina que a saúde dos seres humanos está totalmente conectada à saúde dos animais e à preservação das florestas. Portanto, proteger a natureza é, na verdade, proteger a nossa própria vida. Outra grande barreira atual é que as epidemias costumam começar de forma silenciosa. Por isso, o Dr. Akira defendeu o avanço tecnológico para a criação de testes de diagnóstico rápido, capazes de identificar novas doenças logo no início e evitar que um pequeno surto local se transforme em uma nova pandemia.
Outra "ameaça invisível" que preocupa os cientistas é a queda na cobertura vacinal em todo o mundo. A disseminação de fake news e a hesitação em se vacinar estão abrindo caminho para o retorno de doenças graves que já eram consideradas controladas. O especialista lembrou que decisões políticas que enfraquecem os programas de imunização geram uma desconfiança perigosa na população, reforçando que a vacina ainda é a ferramenta mais segura e eficaz para salvar vidas em larga escala.
Por fim, o painel destacou o papel da inovação e da ciência para antecipar futuras ameaças. Atualmente, os cientistas conhecem pelo menos 25 famílias de vírus com potencial para infectar humanos. O objetivo da comunidade científica internacional é utilizar tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, para desenvolver vacinas e tratamentos em um prazo recorde de até 100 dias após a descoberta de um novo agente causador de doenças. O investimento contínuo na ciência nacional e em instituições como Bio-Manguinhos é o que garante a soberania do Brasil para responder rápido às emergências sanitárias.
Jornalista: Gabriella Ponte
Imagens: Acervo/Bio-Manguinhos

