A pandemia de coronavírus gerou a busca, na sociedade e na imprensa, de momentos similares ao atual que tenham marcado a história da humanidade e, em nosso caso específico, do Brasil. Nos últimos dias, foi muito lembrada – por exemplo – a chamada “gripe espanhola”.

Em “Escolas fechadas, hospitais lotados, eventos cancelados: o Brasil da meningite de 1974”, do repórter André Bernardo para a BBC News Brasil, é lembrada uma epidemia menos citada nos últimos dias, mas que teve grande impacto no Brasil - e que colaborou para a criação de Bio-Manguinhos.

O quadro do país, como bem descreve o repórter, era este:

“Em 1974, durante o período da ditadura militar, o Brasil enfrentava a pior epidemia contra a meningite de sua história. O país já tivera dois surtos da doença - um em 1923 e outro em 1945 -, mas, nenhum deles tão grave ou letal.

Isso porque o Brasil foi vítima não de um, mas de dois subtipos de meningite meningocócica: do tipo C, que teve início em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974.

Para evitar o contágio, o governo tomou medidas drásticas: decretou a suspensão das aulas e suspendeu eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos de 1975, que estavam marcados para acontecer em São Paulo, tiveram que ser transferidos para a Cidade do México. Hospitais, como o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ficaram superlotados.

A que viria a ser a maior epidemia de meningite da história do Brasil teve início em 1971, no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Logo, a população mais carente começou a se queixar de sintomas clássicos, como dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca. Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento.

Em novembro daquele ano, o que parecia ser um surto restrito a uma determinada localidade logo se alastrou e, aos poucos, ganhou proporções epidêmicas. Dali, não parou mais.

Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice. A proporção era de 200 casos por 100 mil habitantes. Algo semelhante só se via no "Cinturão Africano da Meningite", área que hoje compreende 26 países e se estende do Senegal até a Etiópia.”

A situação se agravou de tal forma que, como descreve a matéria, o Estado brasileiro observou a necessidade de ter laboratórios públicos para ter a capacidade de produzir imunobiológicos em larga escala. A criação de Bio-Manguinhos é fruto desta "tomada de consciência":

“Naquele mesmo ano, o governo brasileiro assinou um acordo com o Instituto Pasteur Mérieux e importou em torno de 80 milhões de doses da vacina contra meningite. "O laboratório francês precisou construir uma nova fábrica porque a que existia não comportava uma produção tão grande", relata o historiador Carlos Fidelis. ‘Foi a partir dessa emergência que se criou, na Fiocruz, a fábrica de fármacos, a Farmanguinhos, e a de vacinas, a Bio-Manguinhos’.”

Desde sua criação, o Instituto tem contribuído para a saúde pública em momentos de surtos, epidemias e – agora – de uma pandemia global. Ao combate ao Covid-19, somam-se nossas respostas recentes à reintrodução do sarampo no Brasil – em 2019 Bio-Manguinhos bateu seu recorde de produção da vacina tríplice viral –, o enfrentamento à febre amarela, a produção do kit de diagnóstico para zika, chikungunya e dengue, além de conquistas histórias como a eliminação da poliomielite no Brasil.

 

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Jornalista: Paulo Schueler