O auditório internacional da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz foi o palco do lançamento do livro “Poliomielite no Brasil: do reconhecimento da doença ao fim da transmissão” (Editora Fiocruz), realizado na manhã do dia 11 de dezembro.

Organizada pelo especialista em Saúde Pública e ex-Secretário Nacional de Ações Básicas de Saúde (SNABS) do Ministério da Saúde, João Baptista Risi Junior, a obra aborda a longa trajetória da poliomielite no território brasileiro, que passa pelo reconhecimento da doença, por estratégias de vacinação e processos de contínua aprendizagem nos campos político-institucional, tecnocientífico e social. 

O volume também abarca aspectos fundamentais dessa jornada, como a potencialização das ações de saúde e campanhas de vacinação. “Esse livro resgata a trajetória de enfrentamento onde Bio-Manguinhos e Fiocruz tiveram um papel muito importante”, disse Marco Krieger, Vice-Presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, durante a abertura do evento. 

Risi Junior corroborou a importância da Fundação Oswaldo Cruz e de Bio-Manguinhos nesse processo e contou que a ideia do livro surgiu após um artigo de Akira Homma sobre a erradicação da poliomielite na ocasião das comemorações dos 40 anos de Bio-Manguinhos. “Chegamos à conclusão de que vinte páginas não eram suficientes para dar conta da complexidade do tema. Além disso, é importante que as próximas gerações tenham conhecimento dessa história na íntegra”, explicou Risi. “A pesquisa para o livro ainda levantou as contribuições que a erradicação da poliomielite pode oferecer para outras questões de saúde pública”. 

A doença era conhecida no Brasil desde o início do século XX - a primeira descrição de um surto no País, foi feita pelo pediatra carioca Fernandes Figueira, em 1911 -, mas que só chamou a atenção da opinião pública nos anos 1950, quando epidemias atingiram algumas das principais cidades do país. 

Somente a partir de 1980, a poliomielite - a partir de intervenções e iniciativas internacionais de controle e erradicação - passou a ser combatida pelo setor saúde no Brasil. O último caso de infecção pelo poliovírus selvagem diagnosticado no país ocorreu em 1989, na cidade de Souza (PB). E continua sendo muito importante a alta cobertura vacinal desta virose, pois, no mundo ainda temos a circulação do vírus tipo 1 selvagem no Paquistão e Afagnistão e vírus derivado da vacina em circulação em alguns países africanos.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, que redigiu o prefácio da obra, também esteve presente no lançamento. “(o livro) É uma referência para todos que vierem a estudar a relação entre as áreas de saúde pública e seu acesso, a virologia, a vacinação e como todas essas dimensões se articulam. Associar inovação à produção é um ponto forte da Fiocruz”, disse a presidente, que destacou ainda a “necessidade de ter uma visão integrada das ações de pesquisa, vigilância e atenção à saúde”. 

Multidisciplinaridade e vigilância 

Sanitarista, comunicóloga, e uma das autoras presentes no livro, Aristel Gomes Fagundes falou sobre o papel da comunicação nas campanhas de vacinação que ajudaram na erradicação da pólio no Brasil. “A ação da poliomielite foi uma demonstração da importância da multidiscliplinaridade e multiprofissionalidade em saúde”, conta Aristel, que relatou a criação da campanha de comunicação em um capítulo do livro. “Em 79, fui chamada passa assumir a mobilização para a campanha. As grandes mídias eram a TV, rádio, impresso e o serviço de auto-falante. Foram muitas inserções em horário nobre para que pudéssemos garantir as ’20 milhões de bocas abertas’, que eram a meta da campanha. No final, tivemos um legado fantástico, que inspirou outras ações”. 

Ao final, Akira Homma fez uma exposição sobre produção de vacina e desafios para o Programa Nacional de Imunização (PNI). “As doenças emergentes e reemergentes são de grande relevância para a saúde pública. No passado, a melhoria de saneamento básico ajudou a estancar a crise de várias doenças. No caso da poliomielite, com a melhoria do saneamento em países ricos, o vírus começou a ocorrer em adolescentes e causando epidemias. Precisamos manter a alta cobertura vacinal das doses de reforço, pois ainda temos alguns países do mundo com circulação deste vírus. Além disso, é preciso fortalecer a vigilância epidemiológica, ambiental e sorológica no período pós-erradicação nas populações”. “Bio-Manguinhos está diretamente ligado à história da vacinação da poliomielite. É um livro fundamental”, complementou a Vice-Diretora de qualidade do Instituto, Rosane Cuber, ao encerrar a sessão. 

 

Jornalista: Carolina Landi. Imagem: Bernardo Portella