noticia home dados medicinaDiariamente, grandes volumes de dados circulam pela Internet e outros tantos são gerados a partir das interações dos usuários em rede.As empresas, por sua vez, têm o desafio de acompanhar e monitorar esse processo para não ficarem paradas no tempo.

Em tempos de big data, saber analisar e obter insights estratégicos a partir da mineração de dados pode fazer a diferença.

Na área de saúde, o trabalho envolvendo big data vem sendo feito por equipes multidisciplinares, que combinam estudos de rede e modelagem. A medicina personalizada ou de precisão emerge nesse novo cenário. 


Vacinas e algoritmos

De acordo com o especialista Helder Nakaya, docente do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas do Instituto de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), as vacinas, historicamente, eram desenvolvidas com base na tentativa e erro, em uma abordagem mais empírica. Hoje, é possível entender melhor os mecanismos de imunização a partir de estudos a nível molecular. Através da computação e do uso de sistemas, os profissionais da saúde agora podem aprofundar seus estudos e fazer análise mais detalhadas de grandes volumes de dados, afirma. Inserindo as informações de forma integrada em um sistema biológico, torna-se possível prever o comportamento desse sistema. “Se décadas atrás as hipóteses eram guiadas por descobertas anteriores, hoje elas podem ser guiadas diretamente pelas análises dos dados. Ou seja, podemos pensar em novas perguntas olhando para os dados. Não precisamos usar os dados apenas para tentar respondê-las”, explica.


Biológo por formação, o especialista enxerga a computação como imprescindível para o novo profissional de saúde. Uma das tendência no uso de dados, de acordo com ele,é a medicina personalizada ou de precisão. “Hoje somos capazes de medir a atividade de dezenas de milhares de genes, proteínas e metabólitos ao mesmo tempo. Simplesmente não há como analisar tudo isso sem a bioinformática. Posso dizer que a biologia molecular moderna requer a bioinformática”, destaca. Um dos trabalhos envolvendo esses dados visa o desenvolvimento da vacina contra o vírus ebola.  Nakaya foi convidado para compor o Comitê Científico do consórcio europeu que estuda essa vacina. “Fui chamado para analisar o perfil das pessoas que receberam a vacina do ebola e usamos esses dados para determinar a probabilidade de eventos adversos causados pela vacinação. Estamos tentando entender os genes e as vias de sinalização envolvidas com isso. E por isso, precisamos criar modelos matemáticos, estatísticos e computacionais que nos digam o que vai acontecer com as pessoas vacinadas”, analisa.

Considerando que cada ser humano é único em suas características, tem seu próprio histórico familiar, status nutricional, cada medicamento ou vacina pode produzir uma resposta diferente. “Lidar com essa heterogeneidade é um dos maiores desafios para os cientistas desta área. Cada um de nós é único em diversas maneiras. Não dá para defender um procedimentos padrão para todos”, questiona.

Além das mudanças em nível social, molecular e a própria complexidade biológica, há o desafio de separar, no trabalho de análise, o que é dado e o que é ruído. “Até mesmo a forma como gerenciamos esses dados pode alterar os rumos da pesquisa”, destaca.

Geolocalizando doenças infecciosas

Para o professor da USP, o Brasil ainda tem um longo caminho no que diz respeito a esse tema. “Para avançar mais, poderíamos usar dados biológicos públicos que já foram gerados por outros países ao custo de milhões e milhões de dólares. O que precisamos é usar a expertise dos cientistas brasileiros para fazer as perguntas certas e, assim, explorar esse tesouro de informação biológica”, complementa.

O especialista também lidera um projeto chamado Sipos (Sickness Positioning System), realizado em parceria com alunos e funcionários da USP. Através desse aplicativo, é possível indicar os locais de possíveis contágios de doenças infecciosas. Funciona da seguinte forma: é possível acessar o histórico de geolocalização do paciente pelo celular e analisar onde a pessoa está. Com base nessa informação, vamos identificar criadouro de mosquitos que transmitem doenças como dengue, febre amarela e zika, por exemplo, e sabe onde foi a infecção.
A partir da análise do padrão de mobilidade das pessoas, será possível entender melhor como ocorrem as transmissões de doenças, o que facilitará o desenvolvimento de novos e mais eficazes métodos de combate à epidemias. De acordo com informações do site do projeto, “a ferramenta utiliza o histórico de localização coletado pelo GPS de celulares de voluntários e o processo é completamente anônimo (...) Com os dados de localização, o software SiPos executa um algoritmo de padrão de mobilidade para traçar e encontrar pontos em comum entre pessoas infectadas pela mesma doença e levantar possíveis vetores de contágio”.
O projeto é resultado de um edital promovido pela Fundação Bill e Melinda Gates, que apoia iniciativas inovadoras que visam resolver problemas globais de saúde e desenvolvimento.

Atlas humano

Diante do desafio de analisar as bilhões de células humanas, um grupo de cientistas de diversos países criou o projeto Human Cell Atlas, que fará um mapeamento minucioso do genoma humano www.humancellatlas.org No caso de doenças como o câncer, conhecer de perto o funcionamento de cada célula fará a diferença”, explica o professor da USP.

Novas opções contra o câncer

Além do uso de dados para desvendar o universo das células do corpo humano, um dos usos promissores do Big Data é a imunoterapia como aliada na luta contra o câncer. O tema foi destaque no trabalho realizado por Nakaya e seu aluno de mestrado Matheus Burger, que tiveram artigo publicado na Nature, em colaboração com o cientista americano Rafi Ahmed, da Emory University em Atlanta. O objetivo do estudo foi compreender como funciona a imunoterapia, especialmente a atuação do receptor PD-1 na exaustão das células T, o que pode contribuir para a criação de novas estratégias para potencializaram a ação destes bloqueadores.

Referências


http://sbi.org.br/noticias/mais-um-passo-a-caminho-de-uma-imunoterapia-eficiente/


 

Jornalista: Isabela Pimentel

Imagem: Pixabay

 

​