Um ato simples, que protege e pode salvar vidas, a amamentação é de grande importância para o desenvolvimento cognitivo infantil. Por isso, na semana de 1 a 7 de agosto mais de 160 países se unem para discutir os desafios, benefícios e o valor de tal prática. Neste ano, o tema da campanha é “Amamentar: ninguém pode fazer por você, todos podem fazer juntos com você”.

Conhecido como “agosto dourado”, o mês comemorativo tem como missão conscientizar a população e os profissionais de saúde sobre o valor do aleitamento materno para a saúde da mãe e do bebê e o quanto isso contribui para a redução das taxas de mortalidade infantil e materna. Lideradas pela Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (World Alliance for Breastfeeding Action – Waaba), as iniciativas hoje no Brasil são coordenadas pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Compromisso de muitos

O consultor científico sênior de Bio-Manguinhos, membro da Academia Brasileira de Pediatria (ABP) e também pediatra, Reinaldo de Menezes Martins conta que trabalhou com o tema nos últimos anos da década de 70, tendo participado da idealização do primeiro grupo de trabalho para incentivo ao aleitamento materno, liderado pelo médico José Martins Filho, da Unicamp. “Na década de 80, vimos a ação se fortalecer e ser levada para outros estados brasileiros, contando com a parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Pastoral da Criança”, lembra.

 

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Campanha da Waba marca  o mês de agosto. Imagem: Waba

 

No final dos anos 80, o consultor também atuou como assessor do Projeto Hospital Amigo da Criança, que tinha como objetivo avaliar se as unidades de saúde incentivavam ou não o aleitamento materno. “Acompanhei essa trajetória e posso dizer que a preocupação com o tema faz parte da história de luta de diversos pediatras no país”, destaca.

A Fundação Oswaldo Cruz, contando com as ações desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), é considerada também pioneira na defesa do aleitamento, tendo destaque a criação e coordenação da Rede Brasileira de Banco de Leite Humano (rBLH-BR) e do Programa Iberoamericano de Bancos de Leite Humano. 

O presidente da ABP, professor emérito de pediatria da Universidade de Campinas (Unicamp) e pediatra José Martins Filho conta que o primeiro grupo de incentivo ao aleitamento materno no Brasil foi criado pela SBP, quando o presidente era o médico Nicola Albaro, no final dos anos 70. “

Eu havia chegado da França, onde tinha participado e sido aluno do Curso internacional de Pediatria Social e Comunitária, que era realizado anualmente pelo Centro internacional da Infância, em Paris. Tive contato com vários pesquisadores e colegas pediatras de muitas partes do mundo e o tema ‘importância do aleitamento materno’, principalmente para comunidades carentes e pobres, foi muito discutido.  Nessa época ainda não se conhecia bem todas as outras vantagens da amamentação para o desenvolvimento imunológico, e principalmente, os fatores fundamentais para o desenvolvimento neurológico, psíquico e social da criança”, relembra.

O presidente da ABP conta que começou a dar aulas e promover debates sobre o tema, quando foi convidado por Nicola para presidir o primeiro grupo de trabalho da SBP sobre o tema. Logo em seguida, o pesquisador iniciou sua livre docência na Unicamp sobre o tema, participando de debates com outros profissionais da área de saúde. 


Números preocupantes

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Dados da OMS chamam atenção para falta de políticas específicas.

Imagem: Organização Mundial de Saúde 

 

Apesar da visibilidade que o tema ganha durante a semana temática, os números preocupam. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) apenas 38,6% dos bebês brasileiros se alimentam apenas com o leite da mãe nos primeiros cinco meses de vida, o que é muito abaixo do ideal. A taxa média mundial de amamentação até os seis primeiros meses de vida fica em torno de 20 a 40%. Um dos dados mais surpreendentes da pesquisa é que apenas 23 países do mundo superam a taxa de 60% na alimentação apenas com leite materno nos primeiros meses.  A pesquisa “Global Breastfeeding Scorecard” analisou 194 países e revelou que o investimento brasileiro em promoção da amamentação é crítico: menos de US$ 1 por bebê.

José Martins Filho ressalta que o aleitamento é e sempre será um grande desafio, devido às mudanças sociais, à dinâmica de trabalho da mulher, à falta de uma licença para que a mãe possa amamentar sem problemas (principalmente nos primeiros seis meses e se possível até dois anos) e também o desconhecimento sobre a importância dele na prevenção de doenças.  “ Amamentar exige atenção, cuidado, apoio da família e dos médicos, principalmente dos obstetras e pediatras. E sem apoio da família e da equipe de saúde, nem sempre se consegue. Apesar de todo o esforço da SBP, da ABP, dos Hospitais Amigos da Criança e dos governos, sempre estaremos lutando para elevar a prevalência da amamentação, que hoje sem dúvida é bem maior que na década de 70 no Brasil, mas ainda não conseguimos atingir os objetivos que imaginávamos”, pondera.

 
Imunização natural reduzindo a mortalidade

Além das preocupações com o bebê, é muito importante focar na saúde da mãe, pois se ela não estiver bem nutrida e saudável, não conseguirá amamentar de forma adequada. Um dos maiores benefícios do aleitamento materno, de acordo com Reinaldo Menezes, é a criação de um vínculo emocional e afetivo entre mãe e filho. Mas, além disso, o leite também é valioso e atua como canal que leva à criança anticorpos fundamentais para sua proteção. “A forma como o leite é digerido no intestino infantil o transforma em um ambiente protegido contra determinados agentes patogênicos que podem causar infecções graves. É como se esses anticorpos e o próprio leite materno criassem uma barreira contra doenças graves nos primeiros meses de vida”, explica o pediatra.

Ele acrescenta que para evitar desnutrição e infecções intestinais, o ideal é que a mãe amamente pelo período mínimo de seis meses. “Quando a criança é vacinada e amamentada por no mínimo seis meses, fica mais protegida, reduzindo assim, as taxas de mortalidade e aumentando sua qualidade de vida”, analisa.


Dúvidas sobre doenças infecciosas


De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o aleitamento materno promove benefícios para a mulher, a criança, a família, e para o próprio ambiente, sendo recomendada até os dois anos de idade ou de forma exclusiva até o sexto mês de vida. Mas, pelo fato de muitas mulheres terem dúvidas sobre a manutenção da prática caso apresentem doenças infecciosas, a entidade produziu um guia especial de esclarecimento sobre a repercussão dessas enfermidades na saúde da criança, considerando riscos e benefícios que devem ser levados em consideração.

“A orientação adequada nessas situações é fundamental para evitar o desmame ou a introdução desnecessária de suplementos lácteos ou complementos alimentares”, afirma o documento, disponível no site da SBP. Também foi divulgado na página uma lista com 31 motivos para amamentar. Para o presidente da ABP, a conscientização tem que ser um trabalho constante, em diversos níveis e locais, desde o hospital até em casa. “A mulher precisa ser apoiada, orientada e treinada durante a gestação. Além disso, as equipes precisam saber como apoiar e estimular as mães, para que elas não percam o entusiasmo pela amamentação”.

Hoje além dos Hospitais Amigos da Criança, já se pensa no Consultório Amigo da Criança, além dos postos de saúde. “É uma longa batalha, que não pode cessar”, conclui.

  

 

Jornalista: Isabela Pimentel

Imagem: Pixabay

 

 

 

 

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