Doutor em medicina pela Universidade de Columbia, Scott Halstead escolheu um título sugestivo para sua palestra de abertura no V Seminário Anual Científico e Tecnológico de Bio-Manguinhos: Yellow Fever 17D. Miracle on 66th St.

A brincadeira, segundo ele, faz menção ao filme “Milagre da rua 34”, filme de 1994 no qual Susan, uma garotinha muito inteligente e esperta, afirma que Papai Noel não existe em plena época de Natal. E que milagres existem. Na rua 66 está a sede da Fundação Rockefeller, instituição na qual a vacina Febre Amarela 17D foi gerada com atuação fundamental de Hugh Smith, com quem Scott teve a oportunidade de trabalhar.

Hoje professor adjunto do Departamento de Medicina Preventiva e Biometria da Universidade de Bethesda, Scott atuou em locais como Japão, Coréia e Tailândia. Neste último, este estudando o vírus da chikungunya... em 1963!

 

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Vacina febre amarela 17D acaba de completar 80 anos.
Imagem: Bernardo Portella - Ascom / Bio-Manguinhos

 

A quem esperava que Scott fizesse de sua palestra apenas a exposição da história da vacina que agora completa 80 anos, foram surpreendentes os questionamentos que o pesquisador colocou ao público, sobre temas atuais e que certamente terão impacto futuro na saúde pública, não apenas do Brasil.

Com o exemplo, ele citou o fato da febre amarela não se disseminar, da costa leste da África, para o oriente próximo. Por que? Por outro lado, o que faz com que a encefalite japonesa não se dissemine pelas américas? Qual a relação entre a circulação do vírus da dengue na proteção contra a febre amarela? Zika e chikungunya, podem ser impactadas da mesma forma? “Vocês devem perseguir as respostas para estas perguntas”, estimulou.

No ano passado, em entrevista para a revista Science, Scott já havia afirmado que “em cinco anos, o vírus da zika deve deixar de circular entre nós”. De acordo com ele, isso ocorre porque quando 80% da população pega o vírus, ela se torna imune a ele e, a transmissão acaba por ser bloqueada.

Scott Halstead afirma que os vírus costumam "sumir" e voltar décadas mais tarde. Segundo ele, uma epidemia de chikungunya foi descrita na década de 1870 pelo médico de um sultão de Zanzibar, arquipélago que fica na costa da Tanzânia.

Halstead fez outra aposta: a de que anticorpos produzidos durante epidemias de dengue são capazes de tornar infecções pelo vírus da zika mais severas, e isso poderia estar relacionado ao aumento dos casos de microcefalias e de síndrome de Guillain-Barré. “Anticorpos da dengue estão tornando o vírus da zika mais complexo”, completou.


Jornalista: Paulo Schueler