O Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS) envolve todo o conjunto de atividades relacionadas ao setor que impactam diretamente a economia brasileira. O volume de negócios do segmento corresponde a quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e contribui para abastecer com tecnologias e inovações o Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com números relevantes, o setor ainda enfrenta dificuldades.

A falta de interação entre os entes que compõe o CEIS - que incluem governo, academia e empresas - e a ausência de orientação do Estado para direcionar a atuação das entidades aos temas estratégicos da saúde foram algumas das problemáticas apontadas por especialistas durante o 1º Encontro Nacional do Complexo Industrial e Inovação em Saúde, nesta segunda-feira (8), em Brasília (DF).

Na avaliação de Júlio C. Felix, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI) – que reúne várias entidades que integram o CEIS –, é necessário unir competências e formar parcerias em uma rede de instituições voltada ao processo de inovação. “Nós continuamos trabalhando isoladamente, e não em rede. Isto propicia um ambiente não tão produtivo para o Complexo Industrial da Saúde. Existem diversas redes no Brasil que já trabalham trazendo grandes resultados.”

Um exemplo de sucesso citado por Felix foi o Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec), que tem sido instrumento de articulação e aproximação da comunidade científica e tecnológica com empresas. Na sua avaliação, políticas públicas como essa são capazes de garantir melhores resultados para o complexo porque integra setores estratégicos da saúde como o de produtos; de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias; e de produção.

 

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A falta de interação entre os entes que compõe o CEIS e de orientação do
Estado para direcionar a atuação das entidades aos temas estratégicos

da saúde foram debatidas em encontro. Imagem: Divulgação.



“Precisamos atuar na promoção de ambientes favoráveis à inovação. É fundamental unir esforços, porque inovação não se faz sozinho. Por isso a ABIPTI se propõe, como entidade que congrega essas instituições, públicas e privadas, a viabilizar essa articulação setorial. Podemos auxiliar na expansão e consolidação dessa rede de inovação”, afirmou Felix.

A urgência de parcerias também foi ressaltada pela especialista da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Clélia Bósio. “Vejo muitas empresas caminhando sozinhas para identificar parceiros e desenvolver produtos. Se a gente tivesse uma rede mais consolidada, acessível, seria mais fácil inovar”, comentou. “Como existe um isolamento, há uma pulverização de esforços e recursos muito grande. Várias forças, cada uma puxando para um lado, e com isso, ficamos na inércia, sem sair do lugar.”

 

Tecnologias críticas

De acordo com Clélia Bósio, pensar inovação na saúde apenas comercializando produtos no mercado brasileiro é uma limitação muito grande. “Precisamos ter estratégias para avançar, ter escala, melhorar nossos produtos. Para isso precisamos também ter parceiros externos e internos, que formem opinião sobre o que produzimos e o que estamos desenvolvendo”, alertou.

Nesse sentido, a ABDI participou de um projeto que buscou identificar, junto ao Ministério da Saúde, as tecnologias críticas e prioritárias para o Brasil se desenvolver. Elas foram baseadas nas macrotendências de atenção à saúde, em como reduzir o envelhecimento da população e a urbanização, na introdução da desospitalização com alternativas como o home-care, e na personalização das terapias. Foram identificadas seis áreas como focos de atuação: nanotecnologia, biotecnologia, medicina regenerativa, telemedicina, diagnóstico por imagem in vitro no local, e próteses e órteses.

“Percebemos que existe muita convergência entre setores como o da biotecnologia, da nanotecnologia e da informática. Não desenvolvemos a tecnologia isolada. Hoje se tem pacotes de tecnologias dentro de um produto”, disse a especialista, ao ressaltar que é preciso priorizar o investimento em determinadas áreas para otimizar a aplicação dos recursos públicos.

Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), Ogari Pacheco, a melhor saída para direcionar o investimento público é trabalhar no desenvolvimento de plataformas tecnológicas inovadoras. “Na medida que eu consigo desenvolver uma plataforma inovadora, por exemplo, posso obter vários produtos, ao passo que se eu focar em um só, posso ter sucesso ou não nele, mas fico com apenas um”, ponderou.

 

Novos mercados

Fazer inovação envolve o risco de capital, por isso, na visão de Júlio C. Felix, é importante aprender a correr riscos, o que inclui expandir a atuação para outros clientes que não sejam órgãos públicos. Apesar do poder de compra do SUS ser o maior, ele não é o único comprador.

“O governo brasileiro não é o único mercado. Em produtos farmacêuticos, por exemplo, 35% é do SUS, então há um campo de 65% para batalharmos em outras áreas. Já os kits para diagnósticos representam 60% pelo SUS, então há 40% para trabalhar em cima, que é o mercado. Ou temos sucesso com aquilo que fazemos para o mercado, ou não se tem inovação”, informou.

A entrada da empresa Fujioka para a área de kits para diagnósticos foi citada por Felix como um exemplo de como a inovação e empreendedorismo pode impactar o mercado na área de saúde. “O Japão é líder nessa área hoje. Não é a Europa ou Estados Unidos. Essa mudança ocorreu em virtude da entrada da Fujioka no mercado. Uma única empresa, que antes fazia filmes fotográficos, mudou a distribuição da inovação. Inovar é isso, conseguir realmente mexer com o mercado”, comentou.

  

Fonte: Leandro Cipriano, da Agência Gestão CT&I