farage-100x100Após anos de trabalho na Universidade Federal Fluminense – UFF, divididos entre sala de aula, laboratório e colegiados, a doutora em Microbiologia Sheila Farage recebeu convite que iria mudar sua rotina e estabelecer novos desafios profissionais. Era 2002 quando aceitou o convite para elaborar, organizar e coordenar um Mestrado Profissional em Bio-Manguinhos.

Passados 14 anos, o Mestrado Profissional em Tecnologia de Imunobiológicos (MPTI) por ela criado, com conceito 4 na Capes, já titulou 104 mestres e está abrindo as inscrições para sua oitava turma. Às vésperas de se retirar da coordenação do curso após o fechamento do quadriênio 2013-2016, Sheila concedeu entrevista ao site de Bio-Manguinhos.

 

Como a senhora chegou a Bio-Manguinhos e estruturou o MPTI?

Estando prestes a me aposentar, já tendo contribuído o máximo possível para a UFF e em função dos meus conhecimentos na área de gestão do ensino superior a Dra. Jussara Nascimento, colega de pós-graduação no IMUFRJ e vice-diretora à época do Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos me convidou para uma entrevista com o diretor visando implementar um programa de pós-graduação.

 

E como foi o convite? 

Logo após entrevista com o dr. Akira Homma, então diretor de Bio-Manguinhos, que demonstrou interesse imediato em minha contratação. Naquela oportunidade declarei que a princípio, imediatamente, não seria possível pois ainda estava vinculada a UFF e não havia dado entrada ao pedido de aposentadoria, mas que iria apressar tal procedimento. Após me desvincular da UFF comecei a organizar o programa de pós-graduação. Através da direção de Bio-Manguinhos foi estabelecido um vínculo com o Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), pois a Capes exigia que mestrados profissionais estivessem ligados a PPG acadêmicos.

 

Qual o motivo da implantação do MP em Bio?

O dr. Akira Homma é um vanguardista, com uma visão de futuro ampla, somado a solicitação do presidente da Fiocruz à época, dr. Paulo Buss - que dizia que era função da Fiocruz a pesquisa e o ensino. Assim, todas as unidades técnico-científicas da Fiocruz implementaram mestrados profissionais (sequencialmente INCQS, Bio e Far) a partir desta gestão.

 

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Sheila Farage planeja curso de doutorado em Bio-Manguinhos.
Imagem: Bernardo Portella / Ascom - Bio-Manguinhos

 

Qual a contribuição de um mestrado profissional para a sociedade?

A função de um PPG (programa de pós-graduação) é qualificar profissionais para gerar produtos e serviços mais eficientes e eficazes para a sociedade.

 

E nesses 14 anos ...

Encerrei o vínculo com a UFF e assumi em Bio-Manguinhos com diretores que sabiam o que queriam dando suporte total ao empreendimento da implantação e manutenção do PPG. Foi um presente, pois é um motivo de satisfação para qualquer acadêmico ver realizado e reconhecido um PPG sob sua coordenação.

 

Havia demanda interna?

Dr. Akira via a necessidade de qualificar melhor os profissionais e que seria mais objetivo ter o curso internamente do que manda-los para fora, embora o Instituto sempre tenha estimulado seus profissionais a cursarem mestrado e doutorado em diferentes instituições. Logicamente que o objetivo do Mestrado Profissional em Tecnologia de Imunobiológicos está ligado aos interesses de Bio-Manguinhos. Assim, as dissertações são voltadas para o desenvolvimento técnico-científico da unidade.

 

Quais são os destaques desses anos?

Todas as dissertações têm aplicação para Bio-Manguinhos, todos os egressos ou passaram em concursos públicos, estão empregados ou em doutorados reconhecidos. Entre as dissertações uma originou patente e outras prêmios: Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS 2006 (Ministério da Saúde - Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos - Departamento de Ciência e Tecnologia); premiada no Seminário Anual Científico e Tecnológico de Bio-Manguinhos (2013); Trabalho premiado no II Seminário Anual Científico e Tecnológico de Bio-Manguinhos (2014).

 

Como nós estamos frente à Capes?

O MPTI está inserido na área de Ciências Biológicas II da Capes com conceito 4. Nossa área é considerada entre as mais exigentes da Capes. Os gráficos oriundos da Capes demonstram que tanto os mestrados acadêmicos quanto os profissionais a maior incidência ocorre na nota 4. Ambos os títulos são academicamente iguais. A diferença entre as PPGs é que MPs necessitam de patrocinador que para o MPTI é Bio-Manguinhos. O MPTI é tão bem aceito na área que fui designada pela Capes Coordenadora Adjunta dos Mestrado Profissional na área de Ciências Biológicas II em 2014.

 

E o academicismo ...
A academia tem seus códigos, que são rígidos. Ela é lenta em suas mudanças, mas é ela que define e expande conhecimentos para a sociedade. Não existe a ciência aplicada sem a ciência pura.
A escolha do orientador é importantíssima para os alunos pois é o orientador quem determina o trabalho acadêmico. Muitos alunos acham que vão definir o que fazer e não é bem assim. Quem tem linha de pesquisa é o doutor/orientador e não o aluno que deverá se enquadrar na pesquisa do orientador.

 

Qual o diferencial que faz alunos vir para cá em vez da universidade?

O país precisa de conhecimentos técnicos que sejam aplicáveis e rentáveis. Ocorre que aqui você contribui para a produção de algo que faz diferença na vida de toda a população brasileira, pois “Há um pouco de Bio em cada brasileiro”.
Nosso parque industrial é um dos maiores da América Latina, destinado a produção de imunobiológicos, atendendo às normas de Boas Práticas de Laboratório, Fabricação e Biossegurança.
Nossas atividades permeiam os campos da inovação, do desenvolvimento e da produção de insumos estratégicos que ampliam o acesso a saúde pela população brasileira e torna o país menos dependente do mercado externo.
Para atender às crescentes demandas dos programas do Ministério da Saúde, Bio-Manguinhos investe continuamente na adequação, modernização e expansão de sua infraestrutura física. O nível de excelência também é decorrente da modernização do parque industrial, da ampliação da infraestrutura, incluindo a readequação e expansão de áreas físicas, aquisição de novos equipamentos e melhorias na política de intervenções, investimentos em soluções inovadoras, interna e externamente por meio de parcerias tecnológicas com instituições nacionais e internacionais dos setores público e privado.
Tudo isso é mais do que motivo para que discentes queiram adquirir seu título de mestre no MPTI.

 

Que mais desperta o interesse?

Bio-Manguinhos tem uma massa crítica de 90 doutores altamente qualificados de vem nossos professores e orientadores. Nossa seleção não é apenas interna, é aberta ao público em geral. Todos os nossos egressos estão trabalhando ou em doutorado, pois a Capes acompanha os egressos por cinco anos após a defesa de dissertação.
No MPTI os alunos sem vínculo empregatício ganham bolsa e o curso é totalmente gratuito.

 

Todo funcionário de Bio-Manguinhos pode se inscrever no curso?
Os funcionários dependem da liberação da sua chefia imediata além da formação em áreas afins.

 

Que participação você espera de profissionais de Bio?
Espero um índice de inscrições na seleção maior, pois temos acima de 300 funcionários graduados. Se uma seção tem dois funcionários e só um pode ser liberado, a chefia deve deixar os dois se inscreverem e o que passar em primeiro lugar faz o curso neste ano e o outro na próxima turma, pois não podemos saber de antemão quem será aprovado.

 

E as pessoas permanecem depois de aprovadas?
Nesses anos todos não tivemos nenhuma desistência.

 

Como ocorre a divulgação do MPTI?
A divulgação ocorre através do nosso site e demais vias de comunicação de Bio, assim como o sistema SIGASS da Fiocruz. Vou a diferentes universidades nas unidades de graduações afins para apresentar nosso mestrado aos graduandos.

 

Há alguma novidade, algo diferente para essa turma que está se iniciando?
A diferença foi com essa turma que está se titulando, pois a Capes alterou a exigências e nós nos adequamos.

 

Algo mais?
Uma novidade é o doutorado acadêmico que estamos montando, um desejo do diretor de Bio-Manguinhos, Artur Couto. Espero deixar esse doutorado pronto, mas dependo da colaboração dos colegas para montar as ementas.

 

Jornalista: Paulo Schueler