Referência no Brasil e no exterior como uma das mais respeitadas instituições de ciência e tecnologia, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), cujo campus-sede ocupa cerca de 800 mil metros quadrados em Manguinhos, novamente se mostra com papel fundamental em tempos de zika vírus como um dos assuntos mais comentados no mundo. O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), que em 2016 completa 40 anos de existência, e outras unidades da Fiocruz estão com várias iniciativas em andamento, inclusive o desenvolvimento de uma vacina eficaz e segura contra a doença. A fundação está presente, no total, em 11 estados com 16 unidades, além de quatro escritórios.

Uma das mais recentes empreitadas foi anunciada pela Fiocruz esta semana. Em parceria com o National Institutes of Health (NIH), agência governamental do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, a Fiocruz iniciou pesquisa para entender melhor como o vírus impacta na saúde de grávidas e interfere no desenvolvimento dos bebês.

O estudo planeja inscrever até dez mil mulheres a partir de 15 anos, em até 15 localidades do mundo. Suas gestações serão acompanhadas ao longo dos meses para determinar se foram infectadas pelo vírus e entender qual a magnitude das consequências da infecção nos casos em que os testes acusarem a presença dele no organismo. As crianças geradas serão ainda acompanhadas por mais um ano após o nascimento. Das dez mil gestantes que o estudo acompanhará, quatro mil serão brasileiras moradoras de Rio, Salvador, Recife e Ribeirão Preto.

 

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Produção: a fundação, atualmente, tem dez vacinas em seu portfólio

 

— Esta é prioridade absoluta do Ministério da Saúde e da Fiocruz. Como instituição, congregamos expertise no conjunto de desafios colocados pelo vírus zika que será empregada neste estudo, tal como as interações biológicas do vírus, cuidados materno-infantis e o desenvolvimento de tecnologias diagnósticas. A Fiocruz considera a iniciativa em parceria com o NIH essencial para elucidar a complexidade científica da doença. Será fundamental para ajudar a desenvolver estratégias de prevenção e tratamento contra o problema — explica o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha.

Os resultados entre os grupos de mães infectadas e não infectadas serão comparados para que se chegue ao índice da frequência de abortos espontâneos, nascimentos prematuros, microcefalia, malformações do sistema nervoso e outras complicações.

— É o único desenho de estudo capaz de dar conta da história natural da doença, isto é, entender quais são os problemas que a enfermidade causa, os cofatores que influenciam sua gravidade e os problemas que o bebê pode apresentar depois da exposição da mãe. O único jeito de responder a isso é realizando um estudo de corte com um número grande de recém-nascidos — afirma Maria Elizabeth Moreira Lopes, coordenadora da Unidade de Pesquisa Clínica do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

O Ministério da Saúde confirmou em boletim divulgado no dia 11 de junho 1.581 casos de microcefalia e outras alterações do sistema nervoso, sugestivos de infecção congênita em todo o país. Por isso, a instituição também está envolvida na missão de desenvolver uma vacina contra a enfermidade. A vacina contra o vírus, resultado da parceria firmada entre o Instituto Evandro Chagas (PA), do Ministério da Saúde, e a Universidade Medical Branch do Texas (EUA), estará disponível para os testes pré-clínicos (em primatas e camundongos) já em novembro deste ano. Encerrado o desenvolvimento pelo Instituto Evandro Chagas, a previsão é de que em fevereiro de 2017 sejam iniciados os estudos clínicos (em humanos) para testar sua eficácia na população. Essa etapa será executada pelo BioManguinhos.

— O tempo médio para o desenvolvimento de uma vacina é de seis anos. A zika foi uma surpresa para o mundo todo, era uma doença considerada sem gravidade. Foi a partir da comprovação de que a doença levava a casos como a da microcefalia que isso gerou uma demanda por uma vacina de uso emergencial, mas que dificilmente estará disponível antes de três anos, uma vez que devemos respeitar e observar os padrões mínimos de eficácia e de segurança — resume Marcos Freire, vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos.

 

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 O CIPBR aumentará a escala de produtos
desenvolvidos em bancada 

 

Ele conta que, entre as linhas de pesquisa, uma trabalha com vírus inativado da zika e outra, a recombinação do vírus com o da febre amarela na busca pela vacina.

— São mais de 35 abordagens e mais de 30 tentativas, com dezenas de profissionais envolvidos na compreensão da doença — resume.

Atualmente, a Fiocruz tem em seu portfólio a produção de dez vacinas, seja na totalidade ou em algumas das fases, entre elas as de febre amarela, sarampo, caxumba, rubéola, varicela, meningocócica AC e poliomielite, além de 12 reativos para diagnósticos e biofármacos (medicamentos obtidos a partir da utilização de células geneticamente modificadas para a produção de proteínas terapêuticas).

Entre os planos de expansão das atividades da fundação está o Centro Integrado de Protótipos, Biofármacos e Reativos para diagnóstico (CIPBR), com 14.697,30 m² de área construída, e que deve ser inaugurado até o próximo ano em Manguinhos. O local será a primeira planta de protótipos da América Latina, para aumento de escala de produtos desenvolvidos em bancada e fabricação de lotes para estudos clínicos. Também será a maior planta de produção de reativos para diagnóstico laboratorial do Brasil.

A atuação decisiva e o reconhecimento da Fiocruz perpassa fronteiras, pautado no fato de ela se destacar como principal executora no país da cooperação internacional na área da saúde, atuando prioritariamente nos países da América Latina, da África e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Desde 2008, mantém um escritório oficial em Maputo, Moçambique. A cooperação entre Brasil e o país africano no combate ao HIV no continente iniciou-se em 2003, culminando na construção da fábrica de antirretrovirais e outros medicamentos que está em funcionamento desde 2012.

 

Fonte: Jornal O Globo
Imagens da matéria e da home:
Bernardo Portella - Ascom/Bio-Manguinhos