Em comemoração aos 116 anos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), foi promovido no último dia 25 um evento que apresentou as contribuições recentes da unidade para ciência e a saúde da população brasileira. Na ocasião, pesquisadores dos laboratórios do Instituto ministraram palestras, entre outros temas, sobre as respostas ao desafio do vírus zika para a saúde pública.

O diretor do IOC, Wilson Savino, e o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, participaram da mesa de abertura. O diretor ressaltou a capacidade do Instituto em responder as últimas demandas urgentes de saúde, principalmente quanto ao zika vírus, mesmo em momento de crise econômica, no qual o orçamento para pesquisa científica encontra-se restrito. Já o presidente destacou várias crises políticas, econômicas e até sanitárias que ocorreram durante esses 116 anos de história e como o IOC conseguiu superar e se destacar nesses cenários. “São esses momentos que temos para mostrar que podemos agir de maneira organizada e inventiva”, completou.

 

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 O diretor do IOC, Wilson Savino, e o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha,
participaram da mesa de abertura. 

 

Ana Maria Bispo, chefe do Laboratório de Flavivírus, mostrou as contribuições iniciais para o entendimento da correlação entre vírus zika e microcefalia, montando uma linha do tempo desde o isolamento do vírus em 1947 até as últimas descobertas. A especialista contou que o primeiro impacto epidemiológico da zika ocorreu na Micronésia em 2007. “Os especialistas só começaram a fazer a ligação da zika com comprometimentos neurológicos, como a Síndrome de Guillain-Barré, em 2013, durante um surto na Polinésia Francesa que atingiu 30 mil pessoas”, afirmou a virologista.

O primeiro caso de microcefalia ligada ao zika vírus ocorreu somente em maio de 2015 na Bahia. O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) começou a fazer uma vigilância com pessoas que estavam com uma doença febril cujo diagnóstico não era dengue nem chikungunya. “Foi aí que processamos as amostras em PCR normal e se confirmou a doença através de soro e urina. O primeiro caso autóctone ocorreu no Rio de Janeiro em um paciente com HIV”, ressaltou Ana Maria.

Um estudo foi realizado para entender porque mesmo durante o inverno a ocorrência da doença ainda estava alta (taxa de detecção de 36% a 58%). “Começamos a nos perguntar se o Aedes aegypti era o único transmissor e foi quando confirmamos que a doença também podia ser transmitida sexualmente”, disse a especialista.

Em suas considerações finais, ela comentou que, até o momento, o zika vírus não foi detectado em bebês nascidos com microcefalia, sendo detectado somente em fetos produtos de aborto ou em natimortos. Ele pode ser encontrado em urina, sêmen e saliva. Além disso, foram constatados casos de reativação do vírus zika e casos de co-infecção de zika e chikungunya. Ela encerrou comemorando o processamento de mais de 9 mil amostras só esse ano e a publicação de oito artigos sobre o assunto.

 

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 Ana Maria Bispo mostrou as contribuições para o entendimento da correlação
entre vírus zika e microcefalia.

 

Estudos com saliva e urina

A identificação inédita de partículas do vírus zika com potencial de infecção em saliva e urina foi o foco da apresentação da Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus. A descoberta foi anunciada em fevereiro e teve dados completos publicados em abril. Em estudo detalhado, a especialista comentou que, em saliva, a detecção é melhor, principalmente quando é feito em crianças, cuja retirada de sangue é mais complicada.

De acordo com Myrna, o trabalho foi realizado com o objetivo de investigar fatores de virulência do vírus zika, que ainda são pouco conhecidos. Os vírus isolados a partir de amostras de dois pacientes tiveram o material genético sequenciado, mas novos estudos ainda são necessários para investigar a relevância de potenciais vias alternativa de transmissão da doença.

A pesquisadora citou, ainda, a produção de um clone infectante do vírus, ou seja, uma réplica do patógeno que pode ser usada em pesquisas em laboratório. “Essa é uma ferramenta analítica muito poderosa, que permite investigar o impacto de mutações no código genético viral”, disse Myrna.

Ela ressaltou a colaboração do INI/Fiocruz, do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC e do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC). “O mais importante é que conseguimos trabalhar rápido para dar resposta inicial a esse desafio”, avaliou.

 

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A identificação inédita de partículas do vírus zika com potencial de infecção
em saliva e urina foi o foco da apresentação da Myrna Bonaldo.

 

Analisando os vetores

Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários mostrou os novos conhecimentos sobre os vetores do vírus zika. Primeiramente, ele apresentou resultados recentes de estudos que confirmam o papel do Aedes aegypti como o principal transmissor do vírus zika no Brasil e, secundariamente, a espécie Aedes albopictus. De acordo com o entomologista, o vetor vinha sendo apontado como principal transmissor do agravo com base em estudos realizados nas décadas de 1950 e 1960.

No entanto, nenhum inseto dessa espécie tinha sido encontrado infectado na natureza desde que os surtos da doença começaram, em 2007. Foram analisados cerca de 1500 mosquitos ao longo de dez meses no estado do Rio de Janeiro. Foram identificaram Aedes aegypti naturalmente infectados. O achado era a peça que faltava no quebra-cabeça para determinar a forma de transmissão vetorial do agravo, pois um estudo com participação do laboratório já havia demonstrado de forma experimental a capacidade dos mosquitos para transmitir o vírus zika.

“Comprovamos que o Aedes aegypti é o mais competente e o único encontrado infectado na natureza. Isso indica que as ações de combate estão direcionadas para a espécie certa. Se elas não estão funcionando, precisamos aumentar nossos esforços, além de buscar novas tecnologias”, avaliou Ricardo.

 

Jornalista: Gabriella Ponte com informações do IOC
Imagens: Bernardo Portella - Ascom / Bio-Manguinhos