“O grande problema global em relação ao HIV, é embaraçoso afirmar, é que avançamos pouco em 30 anos. Depois de todo esse tempo, não há nenhuma vacina ou cura. Recentemente, num espaço de tempo curto, aprendemos muitas coisas. A partir de agora as coisas vão se acelerar". A constatação realista, acompanhada pela aposta animadora, são do imunologista brasileiro Michel Nussenzweig, líder do Laboratório de Imunologia Molecular da Universidade Rockefeller, nos EUA, que em sua busca por uma vacina para o HIV acabou encontrando anticorpos monoclonais que conseguiram importantes resultados em ensaios clínicos para o tratamento da infecção pelo vírus.

Michel participou do IIII Simpósio Internacional de Imunobiológicos, evento organizado por Bio-Manguinhos, e deixou esperanças entre os especialistas presentes de que novidades no ataque às ações do vírus HIV estão prestes a ser reportadas.

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Especialista apresentou novas possibilidades para o avanço dos estudos sobre HIV. Imagem: Divulgação / Bio-Manguinhos

 

Dentre os fatos a esperar estão um artigo que, Michel anunciou, será publicado em breve na revista Nature, e o início do uso combinado de diferentes anticorpos monoclonais no combate ao HIV, em ensaios com primatas, algo que “deve começar a ser feito em nossos laboratórios por volta do mês que vem”, declarou.

Aliás, as novidades nem “esfriam” no noticiário: há pouco mais de uma semana, em 27 de abril, Nussenzweig e colegas publicaram na revista britânica o artigo “A single injection of anti-HIV-1 antibodies protects against repeated SHIV challenges”.

Durante o Simpósio, Michel reforçou a aposta de que a busca por uma vacina ainda será longa, e que as condições atuais favorecem, por outro lado, a estratégia de uma sequência de imunizações com os monoclonais. Os primeiros resultados em estudos clínicos encorajam o encorajam a seguir nessa trilha.

O laboratório de Michel conseguiu reduzir a carga do vírus no sangue de humanos infectados pelo vírus com a aplicação do “3BNC117”, anticorpo monoclonal de uma geração eficaz no combate a uma grande variedade de cepas do HIV.

O 3BNC117 se liga a uma região do HIV e o impede de se conectar a uma proteína da superfície dos linfócitos T do tipo CD4 e invadir essas células de defesa do organismo humano.

Produzido naturalmente por cerca de 10% a 30% dos humanos infectados que conseguiam dominar o HIV após dois anos de infecção, o 3BNC117 foi alterado em laboratório pela equipe de Nussenzweig e ministrado em pessoas infectadas e não infectadas com o vírus, que foram monitoradas por 56 dias.

O anticorpo não gerou efeito colateral e houve redução da carga viral no sangue dos infectados de 6 a 8 semanas após a aplicação, permanecendo baixa por quase um mês. Para Michael, o uso de conjuntos de anticorpos que ataquem diferentes partes do vírus, segundo eles, pode impedir que o HIV sofra mutações constantes e consiga escapar ao sistema de defesa, o que fez com que ele tivesse vencido a batalha contra a ciência nos últimos 30 anos. O jogo, agora, começa a virar a favor dos humanos.

 

Jornalista: Paulo Schueler