descoberta-forma-de-melhorar-a-eficacia-dos-antibioticos-thumbConsultor científico do Grupo de Vigilância Integrada de Resistência Antimicrobiana (AGISAR) da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Iniciativa em Resistência Antimicrobiana da União Européia (UE), Antoine Andremont não está nem um pouco otimista com os resultados obtidos nos últimos anos em sua jornada para esclarecer ao público sobre o uso indiscriminado de antibióticos.

“Uso esses slides há 5 anos, e a situação só faz piorar desde então”, afirmou, apontando para sua apresentação, aos presentes do III Simpósio Internacional de Imunobiológicos. Na tela, diante de todos, a estarrecedora projeção de 10 milhões de mortes provenientes da resistência antimicrobiana, em 2050.

“Esse não é só um problema médico, mas uma questão para toda a civilização. É algo tão grave quanto uma catástrofe climática, ou terrorismo”, atestou o microbiologista, autor de mais de 140 publicações e com cinco patentes já depositadas, todas relativas aos mecanismos de resistência bacteriana.

 

Andremont

 De acordo com o especialista, há que se controlar rigorosamente
a produção dos antibióticos. 
Imagem: Bernardo Portella

 

De acordo com Antoine, as projeções indicam que a questão será mais letal que o câncer e a Aids daqui a três décadas, sem que os recursos – financeiros e até mesmo intelectuais – reflitam tal condição. “A pesquisa sobre novos antibióticos se estagnou nos anos 80. Há pouca quantia investida em P&D de resistência antimicrobiana, na comparação com os gastos com câncer ou HIV, sendo que estamos num ponto importante, no qual não conseguimos mais tratar nossos pacientes com os antibióticos hoje existentes”, relatou.

Há um forte relacionamento entre a utilização de antibióticos e a resistência antimicrobiana. Quanto maior o uso desses medicamentos, mais forte se torna a resistência contra eles. “E quanto mais resistentes as bactérias, mais difícil controlá-las”, ressaltou Andremont.

De acordo com o especialista, há que se controlar rigorosamente a produção dos antibióticos. “Há muito descarte de antibióticos no meio ambiente, isso é assustador. São mais de 100 toneladas por km2 em algumas áreas da China, por exemplo. 80% dos antibióticos produzidos são desnecessários”, defendeu.

O descarte de antibióticos não usados, aliás, torna a resistência antimicrobiana um problema de ordem, por assim dizer, ecológico. “Alguns animais foram infectados pelas bactérias mais resistentes, principalmente pássaros. E eles exportam essas superbactérias que consomem no ambiente de um local a outro, exportam do local de descarte para diversos sítios, alguns bem distantes”, explicou.

Os mecanismos de resistência dos micróbios, aliás, estão surgindo nos países emergentes e migrando para a Europa. “Muitas variações do E. coli se tornaram resistentes entre 2000 e 2015”, exemplificou Andremont. Como questão de abrangência global, a resistência aos antibióticos é tema acompanhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e já foi tema para pronunciamentos do presidente dos EUA, Barack Obama; e do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron.

Há cerca de sete anos, em 2009, a OMS classificou os antimicrobianos e selecionou quais não deveriam ser usados na cadeia de produção alimentar, e nos animais, por serem prioritários para os humanos. Um plano de ação da Organização também definiu cinco pontos fundamentais a serem usados por todos os países.

Segundo Andremont, cada nação deve ajustá-lo a sua realidade. “Não há uma ‘receita’ que funcione para todos, cada país deve dosar cada um desses cinco ‘ingredientes’. De toda forma, não vejo possibilidade de uma solução ser encontrada se o debate envolver apenas os responsáveis pela área de Saúde. O tema deve ser ponto de trabalho para os ministérios de agricultura, das finanças, etc”, afirmou.

Andremont apontou que é necessário reduzir a pressão econômica por detrás do uso de antibióticos. “Há uma questão ética a considerar na atuação dos médicos, alguns com o apoio da indústria farmacêutica e que utilizam medicamentos de forma desnecessária”, comentou. Por fim, afirmou que que a última trincheira pode estar prestes a cair. “Na clínica, o que fazemos com um paciente resistente ao Carbapenema? Usamos Colistina. A resistência à Colistina é uma brecha em nossa última linha de defesa”, concluiu.

 

Jornalista: Paulo Schueler