Em 1980, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a erradicação da varíola no mundo - a maior conquista da saúde pública mundial nos 160 mil anos da espécie humana. Após 40 mil gerações de homens e mulheres sofrerem com o Orthopoxvirusvariolae, o somali Ali Maow Maalin foi o último individuo de nossa espécie infectado pelo vírus causador dessa doença.

No mesmo ano o Brasil dava um de seus mais largos passos para controlar outra enfermidade, a poliomielite, ao adotar a estratégia dos dias nacionais de vacinação usando a vacina Sabin, de aplicação por via oral. Em 1989, o último caso era registrado. Em 1994, o país era declarado livre da Pólio pela Opas, fato comemorado há 21 anos.

Não se sabe quem será o último ser humano infectado por um dos três tipos de poliovírus selvagem. Pode-se apostar com grandes chances de sucesso que ele será paquistanês ou afegão, e não somali. E que esta será declarada a segunda maior conquista para a saúde pública no mundo. Certeza mesma, e a boa notícia mora aqui, é de que a humanidade não precisará esperar mais 40 mil gerações; muito provavelmente seremos os últimos a conviver com esse perigo.

Os 7 bilhões de humanos que humanos que vivemos sobre a Terra – e outros tantos que estão por nascer – devem isso a cerca de 20 milhões de pessoas, segundo números da Organização Mundial da Saúde (OMS), envolvidos diretamente nas estratégias de erradicação da Pólio.

Dezenas desses verdadeiros heróis da humanidade estão entre os 1,6 mil trabalhadores de Bio-Manguinhos. Alguns deles se reuniram nos dias 27 e 28 de outubro no seminário “Pólio Nunca Mais: 21 anos de Erradicação da Poliomielite no Brasil” para lembrar essa história - e passar a limpo as dificuldades ainda encontradas para a erradicação global.

Além de abordar a poliomielite a partir da perspectiva global, pesquisadores e protagonistas da história da eliminação da doença na América Latina e no Caribe, entre eles o presidente do Conselho Político e Estratégico de Bio-Manguinhos, Akira Homma; e a coordenadora da Assessoria Clínica do Instituto, Maria de Lourdes Sousa Maia, debateram temas como a produção de vacinas e as estratégias de vacinação, o diagnóstico correto e a vigilância epidemiológica, as mutações nos vírus selvagens e aqueles derivados da vacina OPV (oral), além da síndrome pós-pólio no Brasil.

A presença de especialistas da área das Américas, aliás, se justifica: o continente foi o primeiro a ser declarado pela OMS como livre da Polio, em 1994 – cinco anos antes da Europa. Para isso havia colaborado um programa regional de erradicação iniciado em 1985, que já levava em cota as conquistas obtidas no Brasil desde 1980 e que se baseou também na criação dos 2 dias nacionais de vacinação para crianças com menos de cinco anos.

 

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Abertura do evento contou com participação de Paulo Gadelha
e Akira Homma. Imagem: Roberto Jesus Oscar (COC/Fiocruz)

 

Avanços em 2015, desafios até 2018

Estamos em um ano que gerou boas expectativas em relação a erradicação global do poliovírus selvagem. Afinal, após ter completado um ano sem novos casos de pólio, em outubro a Nigéria foi retirada da relação de países endêmicos - lista que já contou com 125 integrantes e agora está restrita a Paquistão e Afeganistão. Um mês antes, a Comissão Global para Certificação da Pólio já havia declarado que um dos três tipos do vírus selvagem – o “2” – está erradicado no mundo.

Por fim, foram registrados somente 51 novos casos ao longo de todo o ano (38 no Paquistão e 13 no Afeganistão). Parece muito ainda se pensarmos que a meta final é a erradicação, mas não há como esquecer o tamanho do avanço se considerarmos que quando o programa da OMS de erradicação da pólio foi lançado, em 1988, 350 mil crianças sofriam de paralisia infantil no mundo.

Essas centenas de milhares de pessoas, é preciso dizer, representam apenas “a parte visível do iceberg”. Portanto, a menor. Isso também ajuda a explicar porque a varíola foi mais fácil de eliminar: enquanto os portadores do Orthopoxvirus variolae eram facilmente identificados devido às lesões que surgiam na pele, apenas um a cada 100 a 200 (1/100-200) infectados pelos poliovírus selvagens desenvolve a Paralisia Flácida Aguda (forma paralítica da doença), que ainda pode ser gerada pela Síndrome de Guillain-Barré.

A meta da OMS é vencer todos esses desafios e erradicar a poliomielite até 2018. “A doença afeta hoje um número reduzido de crianças, mas se a erradicação não for completa, corremos o risco de voltar a ter casos de poliomielite”, afirmou a consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas-OMS), Samia Abdul Samad.

Para isso, será preciso vencer a resistência de grupos populacionais nas áreas de transmissão, redobrar a atenção na vigilância epidemiológica, fortalecer e promover alterações nos programas de imunização, que envolvem a substituição das vacinas.

A erradicação do poliovírus 2 gera a necessidade que a vacina oral trivalente (com os poliovírus 1, 2 e 3 atenuados) seja substituída pela bivalente (com os tipos 1 e 3), simultaneamente em todo o mundo, entre abril e maio de 2016.

Além de alterar a composição da vacina oral, todos o planeta deverá aplicar pelo menos uma dose da vacina injetável (a chamada IPV) até o fim de 2016. Um dos desafios é garantir a produção dessa vacina em quantidade suficiente para todo o planeta. No Brasil, isso não será problema – graças a Bio-Manguinhos.

O uso da IPV evitará que o vírus tipo 2 volte a circular, e demandará reforço da vigilância: será a “prova final” de que este sorotipo está realmente erradicado. Deseja-se que não surjam novos casos, confirmando a tese da OMS. Entre 2019 e 2020, a ideia é retirar a vacina oral de todos os programas de imunização do mundo.

“Se as crianças que irão nascer depois da substituição da vacina trivalente pela bivalente não receberem pelo menos uma proteção para o [poliovírus] tipo 2, poderemos ter a médio prazo uma comunidade com baixas cobertura de vacinação contra esse tipo, que poderá seguir circulando e adquirir capacidade de causar a pólio”, explicou a Samia.

Se toda esta operação der certo, restarão circulando os vírus derivados da vacina OPV e aqueles que sofreram mutação, o que ainda demandará a vacinação da população infantil no mundo.

 

Memórias... de dificuldades e orgulho

Palestrantes do evento, “doutor Akira” e “Lurdinha” compartilharam durante o seminário suas experiências e participações nas atividades que levaram o Brasil a já estar livre da Pólio. O primeiro, a discorrer sobre “A produção e reformulação da vacina Sabin”; a segunda ao citar sua atuação no Programa Nacional de Imunização - – e também a de colegas que foram coordenadoras regionais do PNI.

“Através do Acordo de Cooperação Técnica Brasil-Japão organizamos a produção da vacina Oral (OPV), com treinamento de profissionais no Japão, em todas as etapas de produção. Organizamos o laboratório de produção, para formulação, envase e controle de qualidade. Montamos um laboratório de neurovirulência em primatas e outro de Controle de Qualidade”, citou Akira. 

Acesse a apresentação de Akira Homma

“Coordenei a campanha do primeiro Dia Nacional de Vacinação, em 1980, no Rio de Janeiro; e tive contato pessoal com o último caso registrado no Brasil. Era uma criança de Sousa (PB), minha terra, tirei foto com ela, caminhei com ela pelas ruas da cidade, observando que não houve sequela. O grande desafio era a vacinação em um único dia, aproveitando os recursos disponíveis, contávamos com voluntários, não pagávamos um centavo às pessoas, havia a participação da comunidade local. Havia ainda os chamados precursores, eu precisava estar antes nos locais para saber se tudo ocorreria bem”, lembra Lurdinha.

Acesse a apresentação de Maria de Lourdes Sousa Maia, com vídeos de relatos de coordenadoras regionais do PNI.

Akira lembrou, ainda, do epidemiologista brasileiro Ciro de Quadros, falecido em 2014. Por sua luta pela erradicação da poliomielite em países da América Latina e no Caribe, a Organização Mundial da Saúde (OMS) nomeou Ciro “Herói das Américas em Saúde Pública”. A este herói de merecido destaque, somam-se aqueles outros 20 milhões de anônimos. Que esta história seja contada em futuros seminários.

 

Leia a cobertura do IOC sobre o evento:

Se a pólio não for erradicada no mundo, corre-se o risco da volta de novos casos, diz consultora da OMS

Sistema integral e gratuito de saúde foi decisivo para erradicação da pólio em Cuba, diz epidemiologista

 

Jornalista: Paulo Schueler

  

 

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