Alinhado às diretrizes do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Bio-Manguinhos investe em parcerias, desenvolvimento tecnológico e inovação. Entre as necessidades apontadas pelo Ministério da Saúde (MS), em termos de novos produtos, e a entrega aos programas de saúde pública existe um longo caminho, permeado por diversas etapas e com diferentes direções. No entanto, o objetivo é sempre o mesmo: oferecer imunobiológicos de qualidade à população brasileira, ampliando o seu acesso. Para isso, é traçada a melhor rota ― o que inclui avaliar interesse público, tecnologia disponível, investimentos e economia futura ― para melhorar os serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).


Bio-Manguinhos, enquanto maior laboratório público do país e com papel estratégico no âmbito do SUS, tem destacada importância no Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Para entregar produtos na quantidade e nos prazos solicitados pelo MS ― em 2012, foram 103 milhões de doses de vacinas; 8,79 milhões de reações de reativos para diagnóstico; e 11 milhões de frascos de biofármacos ―, além de ofertar outros de alto valor agregado, o Instituto investe fortemente na sua cadeia de inovação. “Obviamente que o nosso produto final são vacinas, reativos e biofármacos, que entregamos na ponta da cadeia. Mas para isso há um grande trabalho em Bio-Manguinhos na parte de inovação e a busca por parceiros”, afirma o diretor, Artur Roberto Couto. 


As parcerias são comuns e firmadas com outras unidades da Fiocruz, universidades, instituições públicas e empresas privadas. O investimento em projetos alinhados ao quadro de prevenção da saúde nacional é contínuo. Os recursos são alocados em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e qualificação de pessoas. “Não só prospectamos como também somos procurados por empresas de ponta, principalmente aquelas voltadas a produtos biofarmacêuticos (ou biofármacos), que veem Bio-Manguinhos como um laboratório com potencial e infraestrutura para desenvolvimento e produção”, explica Artur.

Em junho, ele esteve em Brasília para uma cerimônia do Grupo Executivo do Complexo Industrial da Saúde (Gecis), que reuniu os principais atores da indústria farmacêutica nacional (incluindo as multinacionais instaladas no país) além de seis ministérios, a Anvisa, Fiocruz e o BNDES. Na ocasião foram assinadas 27 Parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDP) entre laboratórios públicos e privados. Destas, dez envolveram Bio-Manguinhos (leia box). As PDPs indicam o início de um entendimento para futura incorporação, por meio de acordos, de um novo produto pela rede pública. No mesmo dia, o Instituto assinou um contrato de transferência de tecnologia para a produção do biofármaco Alfataliglicerase, que trata a doença de Gaucher. “Parcerias como essa não podem ser olhadas apenas como uma simples incorporação de um produto. Essas iniciativas nos proporcionam estar sempre atualizados com o que há de mais inovador no mundo, dentro das nossas atividades, além de nos trazer novos conhecimentos e insumos ao país”, explica Artur.

As PDPs que, segundo ele, são feitas por Bio-Manguinhos desde a sua fundação, em 1976, é uma forma de atender rapidamente às demandas do SUS, mas não é o único modelo para ofertar novos produtos. “Também trabalhamos com desenvolvimento próprio”. Nesse aspecto, o Instituto tem casos exitosos em seu portfólio: o teste de microarranjo líquido (diagnóstico molecular que detecta um conjunto de patógenos em uma só amostra), interferon peguilado (biofármaco usado no tratamento da hepatite C), vacinas meningite B e C (que estão em fase 2/3 de desenvolvimento) e o Kit NAT HIV/HCV, apontados por muitos como o melhor exemplo de desenvolvimento nacional, pois envolveu uma universidade (UFRJ), a Fiocruz, por meio do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e Bio. O teste de diagnóstico molecular, que detecta os vírus da aids e hepatite C nas bolsas de sangue dos hemocentros brasileiros, está no mesmo nível dos que são produzidos pelas empresas privadas. “Esse é o modelo que temos que buscar sempre”, diz Artur.

Porém, na prática, projetos de desenvolvimento interno demandam tempo, que nem sempre o Ministério da Saúde pode esperar. “Desenvolvimento tecnológico é um processo que parece simples: parte-se de uma ideia, prova de princípio ou descoberta para gerar um produto, mas é algo extremamente complexo”, afirma o vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos, Marcos Freire. Entre a pesquisa de bancada e a produção em larga escala há um longo caminho: testes em animais, desenvolvimento do processo e prova de princípios, em baixa escala, para avaliação da viabilidade técnica do produto. “Para entrar na fase clínica, o lote piloto, com formulação definida, precisa de um estudo pré-clínico final, com elaboração de um dossiê que vai para o órgão regulatório”, acrescenta ele.

Para que toda essa complexa engrenagem opere, parcerias são imprescindíveis. Como Bio-Manguinhos não atua na fase de pré-descoberta, ou seja, pesquisa básica, iniciando o trabalho já na fase de desenvolvimento produtivo, é fundamental contar com o apoio de outras unidades da Fiocruz. “Queremos buscar uma maior aproximação e integração com as áreas de pesquisa das outras unidades, para atender às demandas do SUS”, afirmou Artur. No ano passado, foram assinadas 12 novas parcerias com outras instituições da Fiocruz.

Paralelemente, o Instituto vem fazendo investimentos de vulto em infraestruturas modernas e tecnologias de ponta, como a nova fábrica para a produção de princípios ativos vacinais e biofármacos em plataforma vegetal, no Polo Industrial e Tecnológico da Saúde, no Ceará. “Na parte produtiva, vamos ampliar a capacidade de produção para atender integralmente às demandas de saúde e as políticas internacionais do governo brasileiro, além das agências das Nações Unidas”, explica Artur. Para isso, um novo centro de processamento final será erguido no novo campus de Bio-Manguinhos em Santa Cruz (RJ).

 

Inovação no dia a dia

Para trazer as discussões sobre gestão da inovação para o cotidiano, o Instituto lançou, em março, o Ciclo de Inovação, um fórum que reúne colaboradores de diversas áreas da unidade. “Hoje temos uma discussão constante de como podemos ser mais fortes no campo da inovação”, explica o diretor.

O plano é definir objetivos específicos da gestão da inovação e a discussão sobre a estratégia do desenvolvimento tecnológico, considerando novos produtos, transferência de tecnologia, prestação de serviços e a elaboração de diretrizes que subsidiarão a revisão da estrutura organizacional da nova empresa pública Bio-Manguinhos, que começará a operar em 2014.
O projeto possui um grupo de trabalho dedicado, que tem visitado empresas para conhecer experiências inovadoras. As observações e aprendizados sobre os cases são compartilhados nos encontros.

 

 

Jornalista: Rodrigo Pereira 

Matéria publicada na Revista Facto nº 38, da Abifina. 

 

 

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