A decisão da Secretaria estadual de Saúde, revelada neste sábado pelo GLOBO, de vacinar, por precaução, toda a população fluminense contra a febre amarela, já que o Rio de Janeiro está cercado por três estados com casos suspeitos e confirmados da doença, provocou ontem um aumento na procura por imunização nos postos de saúde da capital. Em algumas unidades, como a da Tijuca, onde são disponibilizadas 50 doses da vacina aos sábados, as senhas para atendimento acabaram às 7h, uma hora antes de o posto abrir para a população. Neste domingo, a Secretaria municipal de Saúde do Rio anunciou que os postos de saúde vão receber, a partir de hoje, 40 mil doses — um estoque dez vezes maior do que no mês passado.
A informação no local era que, para conseguir vaga, só mesmo chegando às 5h. O secretário municipal de Saúde, Carlos Eduardo de Mattos, as vacinas já estão no estoque da rede. Daqui a duas semanas, quando a capital receberá do Ministério da Saúde 1,5 milhão de vacinas, a ideia é ampliar também os locais de atendimento, passando dos atuais 34 para 233.
O que você precisa saber sobre a febre amarela
Enfermeiros e técnicos já começam o treinamento nos próximos dias. Embora tenha ocorrido mais procura pela vacina da febre amarela hoje (sábado), ocorreu tudo dentro do esperado. A população pode ficar tranquila, pois não há registro da doença no estado. Trata-se de uma medida preventiva para o Rio não se tornar uma ilha, uma vez que houve registros da doença em estados vizinhos, como Minas Gerais e Espírito Santo — disse o secretário.
Na etapa inicial de vacinação no estado, prevista para começar em 15 dias, o Ministério da Saúde vai garantir três milhões de doses contra a febre amarela. A intenção do governo estadual é imunizar, ao longo do ano, toda a população, o que requer 12 milhões de vacinas. Sem querer esperar para ver a filha protegida, Celi Braga levou Juliana, de 16 anos, ao Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto, em Copacabana. Deu azar. Saiu sem conseguir senha para a adolescente:
— Vim quando soube que a vacinação passará a ser recomendada em todo o Rio, antes que os postos fiquem cheios demais. Mas não adiantou. As clínicas particulares não têm a vacina e os centros municipais oferecem pouquíssimas doses por dia .
No mesmo local, o médico Augusto Linhares, que levou as filhas Júlia, de 11 anos, e Luíza, de 8, conseguiu as senhas 80, 81 e 82. Ele disse que, ao chegar ao posto, ficou sabendo que inicialmente seriam distribuídas cem senhas mas, com o grande movimento, “acabaram distribuindo um pouco mais, para atender quem já estava esperando há tempos na fila."
O médico Augusto Linhares com as filhas, em Coapacabana.
Imagem: Fabio Rossi / Agência O Globo
Espera de 1h30 na fila
No Centro Municipal de Saúde Píndaro de Carvalho Rodrigues, na Gávea, a espera na fila era de uma hora e meia. Uma atendente disse que a procura aumentou ontem:
— Segunda e terça-feira não tinha ninguém. Hoje ficou lotado. Estou com o dedo doendo.
No Centro Municipal de Saúde Marcolino Candau, na Praça Onze, algumas pessoas voltaram para casa frustradas: só são aplicadas dez doses da vacina aos sábados. Na Zona Norte, nas unidades Heitor Beltrão, na Tijuca, e Milton Fontes Magarão, no Engenho de Dentro, as senhas para a imunização acabaram cedo.
— Vou para Coronel Fabriciano, em Minas Gerais. Divulgam que o posto tem a vacina, mas não dizem que há uma distribuição de senhas e que é preciso chegar cedo para garantir — reclamou Solange da Silva, no Engenho de Dentro.
Na Baixada Fluminense, os postos de saúde dos quatro maiores municípios da região não funcionaram ontem. Os pacientes que procuraram o Centro Municipal de Vacina, em Duque de Caxias, foram informados que as doses só são aplicadas de segunda a sexta-feira. O mesmo acontece em Belford Roxo, Nova Iguaçu e São João de Meriti.
Para especialistas, a decisão de imunizar toda a população fluminense foi acertada. Segundo Alberto Chebabo, infectologista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, nenhum país do mundo tem estrutura para vacinar milhões de pessoas rapidamente, em caso de surto de uma doença.
— Por isso, já sabendo que a febre amarela está se aproximando muito, é importante ampliar a área de vacinação.
O infectologista Edmilson Migowski, também da UFRJ, diz que é importante que a população saiba que a vacina tem se mostrado segura:
— O esperado é que ela provoque reações graves em uma a cada 500 mil pessoas imunizadas pela primeira vez, mas isso não tem ocorrido. A segurança da vacina é um estímulo para ampliar a imunização. A situação não está sob controle em estados vizinhos; é prudente que o Rio vacine em massa.
Em artigo publicado quarta-feira pelo periódico científico "The New England Journal of Medicine", pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA — entre eles Anthony S. Fauci, diretor da instituição e autoridade mundial no assunto — defenderam uma imunização rápida no Brasil, de forma a conter o arbovírus, classificado por eles como o “mais severo a já ter circulado nas Américas". O artigo relembra a rápida epidemia de dengue, zika e chincungunha no país, afirmando que os arbovírus se expandem rapidamente em populações com baixa cobertura vacinal e, em nível mundial, por meio de viagens. “Para evitar uma ocorrência semelhante no Brasil ou em futuros surtos de febre amarela, a identificação precoce dos casos e a rápida implementação de estratégias de gestão e prevenção da saúde pública, como o controle de mosquitos e a vacinação apropriada, são fundamentais", defendem.
Por enquanto, os casos da doença confirmados no Brasil são do tipo silvestre, ou seja, que não são transmitidos pelo mosquito aedes aegypti. Há 241 mortes notificadas, 127 casos confirmados e oito descartados. A taxa de letalidade nos casos confirmados foi de 33,5%.
O Ministério da Saúde, porém, assegura que toda a demanda será atendida. No bimestre de fevereiro e março, a Bio-Manguinhos, responsável pela produção do imunizante, entregará 20 milhões de vacinas ao governo federal. As três linhas usadas por Bio-Manguinhos para a produção de vacina para febre amarela já operam em capacidade máxima. Segundo o governo federal, a unidade poderia disponibilizar outra planta para reforçar a fabricação.
Perguntas e respostas
Há casos de febre amarela confirmados no Estado do Rio?
Não, o Rio não tem registros de casos suspeitos nem confirmados.
Qual é o risco de a febre amarela chegar ao Rio?
Com base em avaliações dos cenários epidemiológicos, a Secretaria estadual de Saúde do Rio diz que é pouco provável a entrada do vírus no território fluminense.
Então, por que o governo estadual decidiu ampliar a vacinação?
O governo estadual defende a ampliação como uma medida preventiva, para que o Rio continue livre de casos de febre amarela. O território fluminense é rodeado por três estados que têm a maior parte dos casos suspeitos e confirmados da doença no país: Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Por isso, o Rio já estava imunizando a população de 30 municípios que fazem divisa com os estados afetados, em uma espécie de cinturão.
Quem deve ser vacinado?
A Secretaria estadual de Saúde pretende imunizar até o fim do ano toda a população, com exceção de gestantes, mulheres que estão amamentando e bebês com menos de 9 meses. Pessoas com mais de 60 anos precisam ser avaliadas por um médico e ter um atestado para receberem a vacina.
A vacina tem restrições?
Sim. Não devem ser imunizadas pessoas com alergia a algum componente da vacina, como as alérgicas a ovo. Também não é recomendada para pessoas com doença febril aguda, como dengue, ou que estejam em terapias imunossupressoras, como quimioterapia. No mesmo caso estão os portadores de lúpus eritematoso sistêmico e outras doenças autoimunes; pacientes que tenham apresentado doenças neurológicas de natureza desmielinizante (síndrome de Guillan-Barré, ELA, entre outras); pacientes transplantados de medula óssea; pacientes com histórico de doença do timo; pacientes portadores de HIV/Aids.
Pessoas que estão tomando antibiótico estão liberadas para tomar a vacina?
Sim. Não há restrições.
Onde tomar a vacina contra febre amarela?
Ela é disponibilizada gratuitamente em postos de saúde da rede pública de todas as cidades do país. No Rio, é oferecida em 34 postos, entre clínicas da família e centros municipais de saúde. Clínicas particulares também têm. A dose custa entre R$ 150 e R$ 240, segundo levantamento do GLOBO.
Quanto tempo dura a vacina?
A vacina garante a imunidade por dez anos, quando é preciso tomar uma nova dose. Após a segunda dose, não há mais necessidade de tomar uma nova vacina.
Confira aqui para saber os postos com vacinação de febre amarela.
Fonte: O Globo
Imagem da home: Márcia Foletto / Agência O Globo
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