A participação de Bio-Manguinhos na 28ª Jornada Nacional de Imunizações SBIm continuou depois do primeiro dia de evento. Durante a mesa redonda "Projeto de popularização dos CRIE's (POPCrie) e Projeto Prematuridade", ocorrida no dia 22/10, coordenada pela chefe do Departamento Médico de Bio-Manguinhos, Lurdinha Maia, o projeto foi apresentado destacando sua missão de descentralizar o acesso aos imunobiológicos especiais no estado do Rio de Janeiro. Com a iniciativa, o estado passou de quatro Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs) para oito unidades, contando também com uma ampla rede de CIIEs, CIIE-Maternidades e salas de vacina.
O projeto estruturou-se por meio de eixos de gestão que englobam a capacitação técnica de profissionais de saúde da Atenção Primária, a qualificação de maternidades com o Cartão do Prematuro e o Passaporte do Prematuro, e a consolidação de fluxos integrados de atendimento em todo o território fluminense. Esse avanço expressivo na captação precoce de grupos elegíveis resultou em um aumento de número de doses aplicadas de 55.300 em 2024 para 84.600 em 2025, representando um crescimento de 53%, fortalecendo de forma contínua a capilaridade do SUS no estado. Sobre o impacto da estratégia, Lurdinha Maia destacou: "A descentralização e a capacitação contínua das equipes da Atenção Primária transformam o cenário da imunização especial, aproximando os insumos biológicos de quem mais precisa e garantindo que o cuidado ao paciente de risco comece desde o ambiente hospitalar."
Ainda no dia 22/10, o painel “O futuro das imunizações: evidências do mundo real, inteligência artificial e preparação para pandemias”, levou duas participantes de Bio-Manguinhos para debater o assunto, Elena Caride, do Comitê Técnico-Científico de Biológicos, e Beatriz Fialho, da Assessoria de Inteligência Competitiva. Caride falou da complexidade de desenvolver vacinas universais para influenza e Covid-19. Segundo a especialista, “são vírus que sofrem mutações e rearranjos genéticos o tempo todo, mas que precisamos buscar uma solução pois são de alto risco para emergências sanitárias”. Já Beatriz Fialho destacou os usos de inteligência artificial hoje na área de saúde. “As agências de vigilância precisam se preparar, é possível que chegue o momento, por exemplo, de não usarmos mais testes em modelos animais”, ressaltou a assessora. Para Fialho, o desafio do uso de IA é o viés das pessoas por trás da tecnologia.
No dia 23/10 uma mesa reuniu todos os produtores de vacinas participantes da Jornada para apresentar o que vem sendo desenvolvido nas instituições. O Vice-diretor de Inovação de Bio-Manguinhos, Hugo Defendi, destacou a plataforma de RNAm, a primeira da América Latina, e a diversidade de produtos que podem ser produzidos para o SUS com o uso desta tecnologia. O Vice-diretor mostrou também a vacina combinada de sarampo, rubéola e febre amarela que vai passar para a etapa de prova de conceito em primatas.
Debate sobre vacina de febre amarela tem participação de Bio
Na mesa redonda sobre febre amarela, também no dia 22/10, foram debatidos os principais desafios epidemiológicos, as estratégias de controle e a evolução tecnológica do imunizante. O evento contou com a participação dos médicos do Departamento Médico de Bio-Manguinhos, Danillo Gonçalves de Barros, que apresentou o panorama epidemiológico e os índices da doença no Brasil, e Patrícia Mouta, que discutiu o histórico da vacinação com dose fracionada.
Durante as discussões, analisou-se o panorama global da febre amarela nas Américas e na África, o ciclo de transmissão que mescla áreas silvestres e o risco potencial de reurbanização por meio de vetores como o Aedes aegypti, além da reemergência do vírus na Região Sudeste entre 2016 e 2019. Foram destacados os marcos regulatórios e científicos do Programa Nacional de Imunizações (PNI), a importância da vigilância integrada de primatas não humanos (PNH) como sentinelas de alerta precoce, e o papel fundamental da vacina de vírus vivo atenuado da subcepa 17DD, produzida com excelência tecnológica por Bio-Manguinhos/Fiocruz.
Um dos pontos altos do debate abordou a eficácia e o contexto das estratégias excepcionais de imunização. Patrícia Mouta ressaltou que a dose fracionada (0,1 mL, correspondente a do volume padrão de 0,5 mL) foi adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma medida crucial para conter surtos em grandes populações e em cenários de escassez temporária de vacinas, permitindo ampliar rapidamente a proteção coletiva. “Embora estudos clínicos de dose-resposta tenham comprovado alta soroconversão e persistência duradoura de anticorpos com frações reduzidas, a dose padrão de 0,5 mL permanece consolidada no esquema de rotina nacional”, destacou.
Atualmente, o Ministério da Saúde estabelece como meta operacional alcançar uma cobertura vacinal de 95% na população-alvo para garantir a imunidade coletiva e evitar bolsões de suscetibilidade. No entanto, os indicadores recentes apontam que a média nacional de cobertura oscila em torno de 74% a 77%. Embora represente uma recuperação importante frente aos anos anteriores, o índice ainda permanece abaixo da meta, reforçando a necessidade contínua de campanhas de conscientização, busca ativa de não vacinados e fortalecimento da Atenção Primária para mitigar riscos de novos surtos no país.
Texto e fotos: Daniela Rangel e Gabriella Pontes

