A Fiocruz concedeu, na segunda-feira (27/7), o título de Doutor Honoris Causa ao diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. A entrega ocorreu no campus da Fundação, no Rio de Janeiro, durante a agenda ‘Saúde global em um mundo em transformação’. Após a cerimônia, Tedros visitou a plataforma de RNA mensageiro (RNAm) de Bio-Manguinhos, referência para a OMS na América Latina no desenvolvimento e produção de vacinas com esta tecnologia.
Graduado em biologia, Tedros é de nacionalidade etíope e assumiu importantes cargos em seu país antes de ser eleito para a direção-geral da OMS. A honraria é o reconhecimento a uma vida dedicada à saúde pública, à promoção da equidade e ao fortalecimento do multilateralismo. A homenagem foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz, por unanimidade, em setembro.
O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, disse que a trajetória de Tedros "transcende cargos e instituições e se confunde com alguns dos capítulos mais relevantes da história recente da saúde global”. Segundo Moreira, o diretor-geral da OMS soube conduzir a organização em "um dos períodos mais complexos e desafiadores já enfrentados pela comunidade internacional", marcado pela pandemia de Covid-19, crises humanitárias e emergências sanitárias. Moreira ressaltou o significado histórico de Tedros ter sido o primeiro diretor-geral da OMS oriundo da região africana, ampliando a representação do Sul Global nos espaços decisórios internacionais.
Desafios da saúde global
Ao receber a honraria, Tedros destacou que a Fiocruz é um "farol" para a saúde pública mundial, a definiu como a "espinha dorsal científica" da saúde brasileira e uma referência internacional em pesquisa, produção de vacinas e promoção da equidade. “A Fundação ocupa um lugar singular na intersecção entre ciência, serviço público e justiça social. O desafio da saúde global não é somente produzir a inovação, e sim assegurar que a inovação chegue a todos".
O diretor-geral da OMS afirmou que a solidariedade não deve ser entendida como caridade, mas como responsabilidade compartilhada. Também destacou a parceria da Fiocruz com a OMS em iniciativas relacionadas à produção local de tecnologias em saúde, ao fortalecimento de capacidades científicas e à construção de mecanismos mais justos de acesso a vacinas, medicamentos e diagnósticos.
Representando o Conselho Deliberativo da Fiocruz, a diretora de Bio-Manguinhos, Rosane Cuber, destacou que um dos principais legados da pandemia foi demonstrar que “a segurança em saúde depende não apenas da capacidade de responder às emergências, mas de construir, permanentemente, sistemas científicos, tecnológicos e produtivos capazes de enfrentar crises futuras”.
Tedros fez uma visita, após a cerimônia, à plataforma de RNAm de Bio-Manguinhos. Desde 2021, o Instituto é reconhecido pela OMS como centro de referência em vacinas de RNAm na América Latina. Esta tecnologia é considerada estratégica na agenda global pois possibilita a produção de imunizantes e terapias inovadoras em menor tempo e a custos reduzidos, o que aumenta o acesso à saúde e contribui para reduzir desigualdades mundiais.
Memorial: biólogo, ministro e diretor
Ainda durante a cerimônia, a pesquisadora Marilda Siqueira, falando em nome dos laboratórios de referência e centros colaboradores da OMS sediados na Fiocruz, disse que a liderança de Tedros ensinou à comunidade internacional que "as forças que nos unem são maiores do que os desafios que nos separam". Já o diretor da Opas, Jarbas Barbosa, afirmou que a homenagem transcende o reconhecimento de uma trajetória individual e simboliza o compromisso compartilhado da Fiocruz, da Opas e da OMS com a ciência, a cooperação internacional e a saúde como direito humano fundamental.
Na leitura do memorial acadêmico e profissional, o coordenador do Centro de Desenvolvimento de Tecnologias em Saúde (CDTS), Carlos Morel, resgatou a trajetória de Tedros desde sua formação como biólogo na Etiópia (1996) até sua atuação como pesquisador, ministro da Saúde (2005-2012), ministro das Relações Exteriores (2012-2016) e diretor-geral da OMS, eleito em 2017.
Morel destacou reformas implementadas no sistema de saúde etíope, incluindo a formação de cerca de 40 mil trabalhadores de saúde e a expressiva redução da mortalidade infantil. Também lembrou que Tedros foi o primeiro não médico a dirigir a OMS. O memorial ressaltou ainda sua atuação na resposta à Covid-19, à mpox, ao Ebola e em crises humanitárias como as do Sudão, Afeganistão e Gaza, além de seu apoio ao sistema global de acesso a patógenos e repartição de benefícios (PABS, na sigla em inglês), considerado estratégico para evitar a repetição das desigualdades observadas durante a pandemia.
Imagens: André Rocha, Gabriella Ponte e Pedro Linger

