O efeito das mudanças climáticas na saúde já é uma realidade e, com isso, é necessário que pesquisadores e profissionais da área se preparem para enfrentar novos desafios. As arboviroses, por exemplo, são enfermidades diretamente impactadas pelas chuvas e calor, que aumentam a sua incidência. Para discutir o tema, o Departamento de Assuntos Médicos, Estudos Clínicos e Vigilância Pós-Registro (Deame) de Bio-Manguinhos/Fiocruz promoveu, em 22/7, mais um ‘Encontros do Conhecimento’, desta vez com o tema “Dengue: da epidemiologia à segurança das vacinas”.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 5,6 bilhões de pessoas vivem em áreas de risco para a dengue, que é considerada uma doença modelo quando se fala em aquecimento global, justamente pela sua epidemiologia. “Há uma expansão acelerada da dengue no mundo, tanto em termos de extensão geográfica quanto de altitude, o Nepal, por exemplo, nunca tinha tido casos e atualmente tem surtos frequentes”, explicou o infectologista do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), André Siqueira.
O pesquisador afirmou que no Brasil a enfermidade também mudou muito seu padrão epidemiológico: “Hoje temos dengue em todos os lugares do país, o vetor, o mosquito Aedes aegypti, se adaptou ao ambiente urbano. Nos estados do Sul, a introdução da doença começou há apenas quatro anos, mas com letalidade bastante alta, o sistema de saúde simplesmente estava despreparado para enfrentar um número grande de casos”.
Para este ano, com a perspectiva de um forte El Niño a partir de setembro, espera-se que a região das Américas tenha uma incidência alta de dengue. Na Ásia, onde o fenômeno climático já afeta o clima, observa-se mudança na epidemiologia da doença. Como as lacunas no enfrentamento da dengue ainda são muitas – poucas opções de vacina, falta de um tratamento direcionado, dificuldade no diagnóstico pelos sintomas inespecíficos e o desafio do controle do vetor –, Siqueira sugere que uma vigilância inteligente seria uma saída. A ideia seria utilizar sistemas complementares de maneira integrada, o que resultaria em dados suficientes para antecipar com precisão futuros casos.
O básico que funciona: controle do vetor
Também participaram do evento, a bióloga da Vice-diretoria de Inovação em Saúde de Bio-Manguinhos, Ana Claudia Duarte, e a médica de segurança do Deame, Patrícia Mouta, que falaram sobre as vacinas contra dengue. Duarte detalhou as dificuldades de desenvolvimento de um imunizante para a doença. De acordo com a pesquisadora, o problema central seria produzir uma vacina tetravalente, que seja eficaz contra os quatro sorotipos do vírus, e balanceada, ou seja, que promova resposta imunológica duradoura também para os quatro sorotipos.
Mouta ampliou o tema ao falar sobre farmacovigilância e abordou a suspensão da vacina do Instituto Butantan. Segundo a médica, “a interrupção temporária não significa afirmar que o imunizante causou os danos observados em pessoas que foram vacinadas”. Moura ressaltou que a decisão de suspender o uso de uma vacina depende principalmente do momento epidemiológico da doença, o fator essencial sempre será o equilíbrio entre os benefícios da vacinação e os potenciais riscos de efeitos adversos.
A lição que fica é que o controle do vetor ainda é a fundamental para evitar surtos e epidemias de dengue, por meio da eliminação de criadouros do mosquito em áreas públicas e, em residências, com a ajuda da população. O Ministério da Saúde emitiu Nota Técnica, em 22/7, para alertar os estados e municípios para a possibilidade de aumento de arboviroses devido ao El Niño e um dos pontos do comunicado é o reforço nas ações de mobilização da sociedade em prol da eliminação do mosquito.
Imagens: André Rocha

