O surto recente de hantavirose em um navio de cruzeiro que saiu da Argentina foi o mote do ‘Encontros do Conhecimento’, promovido pelo Departamento de Assuntos Médicos, Estudos Clínicos e Vigilância Pós-Registro (Deame) de Bio-Manguinhos/Fiocruz, em 17/6. Com o tema “Hantavírus - panorama atual, vigilância e preparação para ameaças emergentes”, o evento discutiu possibilidade de tratamentos, desenvolvimento de vacinas e epidemiologia do hantavírus.
As mudanças climáticas foram o ponto de destaque durante o encontro. A chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Renata Oliveira, relembrou que no início dos anos 90 foi um El Niño que levou à primeira emergência sanitária causada por hantavírus nos EUA. “O evento climático causou muita chuva em uma região do país e houve aumento na população de roedores, que são os vetores do hantavírus”, explicou a pesquisadora.
Até então, o vírus era conhecido por causar febre hemorrágica com síndrome renal em países da Europa, Ásia e África. O surto nos EUA, localizado em uma região entre os estados do Arizona, Colorado e Novo México, levou à descoberta de uma nova doença causada pelo organismo, a síndrome pulmonar por hantavírus, de alta letalidade. Oliveira alertou para o El Niño já confirmado para este ano por especialistas, que vêm chamando a atenção para uma possível incidência extrema do fenômeno climático.
A médica infectologista do Deame, Clarisse Vianna, também destacou a emergência climática mundial como fator que pode levar à expansão da incidência das doenças causadas pelo vírus no mundo. Tanto o aumento das temperaturas, quanto os eventos extremos – secas e chuvas – favorecem situações em que os roedores buscam novas regiões em busca de comida e, assim, há maior proximidade entre os animais e as pessoas.
“As mudanças climáticas não criam novos hantavírus, mas podem aumentar a abundância dos reservatórios, expandir sua distribuição geográfica e elevar o risco de transmissão para humanos”, afirmou a infectologista, que ressaltou o fato de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o vírus no rol de priorização de patógenos com alto risco para novas pandemias. “A família do hantavírus está no radar da OMS desde a Covid-19 e o surto no navio acendeu um alerta. Hoje não temos contramedidas, vacinas ou tratamentos específicos, embora haja algumas iniciativas em estudo”.
Vigilância é a prioridade atual
A dificuldade de desenvolver imunizantes vem da baixa incidência da doença. No Brasil, os casos são, em sua grande maioria, restritos a áreas rurais, com transmissão roedor-pessoa. O diagnóstico de hantavirose conta com a opção de teste rápido registrado junto à Anvisa, capaz de detectar a conformidade da doença em até 20 minutos com a utilização de uma gota de sangue. A disponibilidade dessa ferramenta visa dar suporte ao diagnóstico precoce, fundamental para que os pacientes recebam assistência adequada, além de ampliar as ações de vigilância.
As enfermidades causadas pela família do hantavírus são consideradas graves, a síndrome pulmonar, incidente nas Américas, tem alta letalidade. O diagnóstico tardio é um dos principais problemas, já que os pacientes, de início, apresentam sintomas comuns a muitas viroses, como febre, tosse seca e dor de cabeça. A transmissão entre pessoas é considerada rara, a principal forma é pelo contato com urina, saliva e fezes de roedores silvestres infectados, especialmente pela inalação de partículas presentes no ambiente contaminado.
Texto e imagem: Ascom / Bio-Manguinhos

