lancamento cart peqNeste sábado (23/5), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, onde será produzida a primeira terapia celular CAR-T triespecífico 100% nacional. O laboratório está instalado em uma unidade modular no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz).

O lançamento do Centro é o primeiro marco físico da parceria para transferência de tecnologia firmada em novembro de 2023 entre a Fiocruz, o Ministério da Saúde e a organização norte-americana sem fins lucrativos Caring Cross. A iniciativa representa um marco na estratégia brasileira para terapias celulares, com dois diferenciais estruturantes:

Modelo descentralizado (point of care) – O laboratório modular, instalado em contêiner, permite que a produção da terapia CAR-T ocorra próxima aos centros de tratamento, viabilizando uma estratégia nacional descentralizada. Esse modelo reduz custos logísticos, agiliza o atendimento e pode ser replicado em diferentes regiões do país, ampliando o acesso a tratamentos de alta complexidade no SUS. A primeira unidade produtora nesse modelo já está instalada no Rio de Janeiro em Bio-Manguinhos/Fiocruz e entrará em operação em breve, dando suporte ao início dos estudos clínicos no país.

Produção nacional dos vetores lentivirais – Por serem responsáveis pelo transporte do gene do receptor CAR (Chimeric Antigen Receptor) ao DNA das células de defesa do paciente (linfócitos T), os vetores são a peça-chave da terapia. A produção de células CAR-T de alta qualidade depende de vetores lentivirais seguros e eficientes. Bio-Manguinhos será o primeiro produtor nacional de vetores virais, garantindo ao país domínio completo de toda a cadeia produtiva da terapia e eliminando a dependência de importações.

infopngA iniciativa integra a Estratégia Fiocruz para Terapias Avançadas e reforça o papel da instituição como articuladora de soluções estruturantes para o SUS. O projeto prevê a internalização verticalizada das principais etapas produtivas deste tratamento no país, ao reduzir significativamente a dependência externa e ampliar a capacidade do país em responder a desafios complexos em saúde. Por meio das transferências de tecnologia, Bio-Manguinhos/Fiocruz torna-se um produtor global de terapias avançadas, replicando localmente os processos de fabricação dos vetores virais e processamento celular desenvolvidos pelos parceiros transferidores.

O objetivo principal do acordo de transferência de tecnologia é disponibilizar essas terapias a um número maior de pacientes que, hoje, não têm acesso devido ao alto custo. Com a produção por Bio-Manguinhos/Fiocruz, o tratamento poderia estar disponível para a população brasileira por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Nos Estados Unidos, produtos de células CAR-T aprovados para uso comercial têm custo médio de US$ 350 mil a US$ 400 mil cada dose. A partir da produção em Bio-Manguinhos/Fiocruz, o custo poderá ser reduzido para cerca de 10% desse valor.

Na prática, essa redução pode representar uma economia potencial de bilhões de reais para o SUS ao longo dos próximos anos, além de permitir a ampliação do número de pacientes atendidos e a incorporação gradual dessas terapias no sistema público.

Segundo a diretora de Bio-Manguinhos, Rosane Cuber, os vetores lentivirais são um dos componentes mais caros de toda a cadeia de produção da terapia CAR-T e representam um dos principais gargalos para a redução de preços e ampliação do acesso.

“A produção local de vetores lentivirais é uma estratégia central para reduzir custos e garantir a sustentabilidade do tratamento. Além disso, com o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, Bio-Manguinhos entrega uma solução descentralizada que não apenas atende ao sistema público brasileiro, mas nos torna um hub de referência na produção e exportação deste modelo de terapias avançadas para toda América Latina”, explica a diretora Rosane Cuber.

Produção dos lentivírus será realizada em planta utilizada para vacina de Covid-19

A produção do vetor lentiviral, necessário para a modificação gênica das células, ocorrerá na planta de vetores virais de Bio-Manguinhos/Fiocruz recentemente utilizada para a vacina de Covid-19. Ou seja, os avanços para a produção dessas terapias é fruto do investimento e da capacitação tecnológica realizada durante a pandemia.

Já no Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, um laboratório modular fabricado nos Estados Unidos, com aproximadamente 70 metros quadrados, e instalado atualmente em Bio-Manguinhos, será realizada a modificação gênica das células do paciente. Será neste local que as células serão "reprogramadas" para adquirirem a capacidade terapêutica e gerar o produto celular (CAR-T) que será infundido nos pacientes.

Como funciona a terapia com células CAR-T

lancamento cart peq2A terapia a ser desenvolvida pela Fiocruz é a duoCAR-T triespecífico (tecnologia desenvolvida pela Caring Cross), cuja principal vantagem é reconhecer e atacar simultaneamente três antígenos diferentes no tratamento de câncer. Isso garante uma eliminação da doença mais robusta, abrangente e com expectativa de respostas clínicas duradouras.

O projeto inclui um estudo clínico liderado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) para pacientes adultos com linfoma não-hodgkin difuso e leucemia linfoblástica aguda de difícil tratamento. Os participantes do estudo terão suas células retiradas, o material será transportado para o laboratório, onde serão transformadas e novamente levadas ao hospital para serem infundidas nos pacientes. A previsão é que os primeiros pacientes recebam o tratamento no segundo semestre deste ano.

A terapia com células CAR-T é um tipo de tratamento inovador que utiliza as próprias células do paciente para combater o câncer. Primeiro, profissionais de saúde retiram linfócitos T, que são as células de defesa, do próprio paciente. Em laboratório, essas células passam por uma modificação genética para receber um receptor especial, chamado CAR, que permite reconhecer as células cancerígenas. Estas células são multiplicadas em grande quantidade em laboratório e reinfundidas no paciente, em um processo parecido com uma transfusão de sangue comum.

Já no organismo do paciente, as células CAR-T identificam e atacam as células tumorais. A terapia CAR-T é considerada um dos maiores avanços recentes na área de Oncologia.

Texto e arte: Ascom/Bio-Manguinhos
Imagens: Ricardo Stuckert (PR) / Pamela Lang (Ascom/Bio-Manguinhos)

 

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