O Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro foi palco para o segundo dia do 10th International Symposium on Immunobiologicals (ISI). O encontro aconteceu no dia 7 de maio e reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir diagnósticos, desenvolvimento de vacinas, terapias baseadas em RNA e os desafios da desinformação em saúde pública. A programação foi marcada por debates sobre soberania tecnológica, preparação para pandemias, cooperação científica e fortalecimento da comunicação em saúde.
A abertura contou com a participação de Rosane Cuber, diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, que deu as boas-vindas aos participantes do 10º simpósio e lembrou que a semana marca as comemorações pelos 50 anos do Instituto. Ela destacou a iluminação do Cristo Redentor em azul no início da semana como símbolo da celebração e afirmou que, além das homenagens, o encontro representa um espaço de trabalho, construção coletiva e fortalecimento da ciência como bem público. Segundo Rosane, arte e ciência compartilham criatividade, sensibilidade e o impulso de questionar o mundo. A diretora também reforçou a importância da colaboração científica para garantir acesso equitativo à saúde e fortalecer o SUS.
Diagnósticos diante das mudanças climáticas e novas pandemias
A primeira mesa do dia “Diagnostics for a New Era”, coordenada pelo vice-diretor de Reativos para Diagnóstico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Antonio Gomes Pinto Ferreira, reuniu especialistas para discutir os desafios relacionados ao diagnóstico, vigilância epidemiológica e preparação para futuras emergências sanitárias. Os debates abordaram os impactos das mudanças climáticas sobre doenças infecciosas, a expansão de ameaças emergentes, como mpox e vírus Oropouche, e a necessidade de respostas integradas dentro da perspectiva One Health.
Também foram debatidos os desafios regulatórios associados às novas tecnologias em saúde, incluindo inteligência artificial, proteção de dados e cibersegurança. A programação incluiu ainda apresentações científicas sobre o desempenho da plataforma DPP HIV 1/2 Rapid ImmunoBlot, desenvolvida por Bio-Manguinhos, para ampliação do acesso ao diagnóstico rápido de HIV, além de estudos relacionados à vigilância genômica de vírus respiratórios no Brasil.
Cooperação Sul-Sul e fortalecimento da produção regional
Outro destaque da programação foi o debate sobre cooperação Sul-Sul em desenvolvimento biotecnológico, transferência de tecnologia e capacitação. A mesa contou com a participação da secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, Fernanda De Negri, que iniciou sua fala homenageando o assessor científico sênior de Bio-Manguinhos, Akira Homma, e destacou a importância de trazer debates internacionais para o Brasil, especialmente diante dos desafios enfrentados pelos países do Sul Global. Ela ressaltou a necessidade de fortalecer a soberania tecnológica, ampliar políticas públicas consistentes e investir em cooperação internacional. Segundo Fernanda, o governo brasileiro vem atuando para estimular o desenvolvimento tecnológico por meio de programas de inovação radical e parcerias estratégicas, buscando consolidar o país como ator relevante no cenário global da saúde.
A vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Priscila Ferraz, também participou das discussões, destacando a Global Coalition for Local and Regional Production, Innovation and Equitable Access, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção regional de tecnologias em saúde e à promoção de acesso equitativo. A coalizão foi criada como uma plataforma global de cooperação internacional que reúne governos, organizações internacionais, instituições científicas, setor produtivo, organizações filantrópicas e sociedade civil, com o objetivo de ampliar o acesso a vacinas, terapias, diagnósticos e outras tecnologias em saúde, com foco especial em doenças negligenciadas e populações em situação de vulnerabilidade, sobretudo em países em desenvolvimento.
O avanço das terapias baseadas em RNA e os desafios da desinformação também foram temas do simpósio
A programação científica incluiu ainda apresentações sobre novas plataformas de RNA e terapias inovadoras. Coordenada por Patricia Neves, de Bio-Manguinhos/Fiocruz, a sessão reuniu pesquisadores e representantes de startups voltadas ao desenvolvimento de terapias inovadoras, que apresentaram avanços em vacinas de RNA mensageiro, RNAs não codificantes e estudos voltados ao desenvolvimento de tratamentos para doenças genéticas e câncer. Os especialistas destacaram o potencial dessas tecnologias para transformar diagnósticos, terapias personalizadas e medicina de precisão nos próximos anos.
Encerrando a programação do dia, especialistas discutiram os impactos da desinformação na saúde pública e os desafios da comunicação científica em ambientes digitais. A mesa foi coordenada pela pesquisadora sênior da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, e reuniu participantes que abordaram temas como fake news, negacionismo, confiança nas vacinas e os efeitos dos algoritmos e das redes sociais na circulação de informações falsas.
Margareth Dalcolmo destacou que o negacionismo e a desinformação não são fenômenos novos, embora tenham adquirido novas proporções com as redes sociais e as plataformas digitais. A médica compartilhou experiências vividas durante a pandemia de Covid-19, lembrando que inicialmente não tinha dimensão do impacto das fake news e da circulação de informações nas redes. Ela relatou que um vídeo gravado no início da pandemia alcançou milhões de visualizações em poucas horas, ampliando sua participação no debate público e na imprensa. Margareth também destacou sua atuação atual em iniciativas voltadas à preparação para futuras pandemias.
Durante o debate final, Akira Homma ressaltou os esforços realizados para combater fake news e recuperar a confiança da população na vacinação. Segundo ele, a redução das coberturas vacinais demonstra que o enfrentamento à desinformação precisa envolver toda a sociedade.
Texto: Marcela Dobarro
Edição: Helouise Costa
Imagem: Andre Rocha

