“Ninguém estará seguro enquanto todos não estiverem seguros”. A frase do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, resume o objetivo da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, que lançou sua primeira chamada de projetos para fortalecimento de capacidades locais e regionais de produção e inovação de produtos de saúde nesta terça-feira (24/3).
O ministro participou do lançamento da chamada ao lado do presidente da Fiocruz, Mario Moreira; da diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Rosane Cuber; e de diversas outras autoridades, incluindo os membros do Comitê Diretivo e Consultivo da Coalizão, no auditório de Bio-Manguinhos. “O primeiro desafio a ser enfrentado foi definido em conjunto pelo Comitê Diretivo: a dengue. A explosão de casos no mundo é um dos sintomas que a crise climática é, sobretudo, uma crise de saúde pública. Por isso, é particularmente simbólico que a Coalizão tenha escolhido a doença como seu primeiro desafio a ser enfrentado”, explicou Padilha.
Atualmente, a Coalizão é presidida pelo Ministério da Saúde e a Fiocruz exerce a Secretaria Executiva. “Precisamos de alternativas de abordagem para este mundo desequilibrado, que teve na Covid-19 uma prova de que deveríamos ter uma mudança de mentalidade”, disse o presidente da Fiocruz na cerimônia. “Aqui na Fundação vemos a Coalizão como oportunidade para uma articulação forte com as plataformas e iniciativas em diversas regiões, considerando que prioridades regionais e globais devem se reforçar mutuamente”.
A Chamada de propostas é o primeiro passo concreto na busca pelo fortalecimento da produção local e regional e pelo desenvolvimento tecnológico que leve à redução das desigualdades globais no acesso à saúde. A iniciativa busca, neste primeiro momento para a dengue, identificar e apoiar projetos que estimulem a estruturação de redes globais sustentáveis que garantam tecnologias essenciais, como vacinas, terapias e diagnósticos, para doenças negligenciadas e pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade.
Articulação é ponto crítico para impacto da Coalizão
Bio-Manguinhos/Fiocruz tem papel fundamental na estruturação de uma rede de produção de produtos de saúde para o Brasil e o Sul Global. A diretora da instituição mediou o painel ‘Sinergias com outras iniciativas’ durante o lançamento, para discutir quais ações poderiam ser importantes nesse desafio, com participação do chefe do Gabinete de Políticas de Saúde e Relações Internacionais do Ministério da Saúde da França, Bertrand Millet; do representante no Brasil da Organização Panamericana de Saúde (Opas/OMS), Cristian Morales; do diretor geral da IVI, Jerome Kim; e da Secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Fernanda de Negri.
“Esta é uma oportunidade concreta de fortalecer capacidades produtivas, promover transferência tecnológica e ampliar o acesso a tecnologias de saúde de uma forma muito mais justa e sustentável”, afirmou Cuber. O ponto, segundo a diretora, será conectar esforços para construir soluções de maneira coordenada: “Precisamos garantir que as propostas se articulem estrategicamente com o ecossistema já existente para ampliar o impacto da Coalizão”.
O representante da Opas Cristian Morales acredita que os fundos de compra agregada, mecanismo que a instituição usa há 50 anos, são uma possibilidade. “Combinamos a demanda de países grandes, como o Brasil, com o de menores, por exemplo, El Salvador ou Costa Rica. É uma ferramenta técnica para acessar produtos e insumos, mas também é uma forma de produzir solidariedade entre os países das Américas”, concluiu.
Já Fernanda de Negri defende o multilateralismo e a detenção do domínio tecnológico: “O acesso só é possível por meio do desenvolvimento de plataformas tecnológicas importantes, em longo prazo isso pode tornar o Brasil soberano e capaz de atender às necessidades da população”.
“Fica muito claro a partir de todas as falas que tivemos que o sucesso da Coalizão depende da sua capacidade de articular instrumentos regionais, alinhando prioridades políticas, com participação do setor privado e fortalecendo capacidades concretas de produção e inovação. Vimos alguns exemplos de como isso é possível, seja por meio de fundos como os da Opas, seja com o incentivo ao desenvolvimento tecnológico que nasce nas universidades ou mesmo pelo apoio político dos blocos como o G7”, resumiu a diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz.
Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo
A Coalizão é um dos mais importantes resultados da Presidência do Brasil no G20. A assinatura da Carta de Genebra, em maio de 2025, durante a 78a Assembleia Mundial da Saúde, criou a iniciativa e foi um marco para colocar em pauta questões emergentes que abordam desafios interconectados: a concentração da capacidade de ciência, de P&D e de produção nas áreas de ciências da vida, tecnologia e saúde em um pequeno número de países; cadeias de suprimentos frágeis; assimetrias regulatórias; e integração limitada entre inovação, produção e acesso, particularmente em países de baixa e média renda.
Multissetorial, a iniciativa foi concebida pelos ministros da Saúde do G20 e apoiada de forma voluntária por governos, organizações internacionais, setor privado, instituições públicas e filantrópicas, academia e sociedade civil. Para o diretor-geral assistente da Organização Mundial da Saúde (OMS) para Promoção da Saúde, Prevenção de Doenças e Cuidados, Jeremy Farrar, é preciso mudar o ‘centro de gravidade’ de forma a tornar a ciência disponível para todos. “Quando estamos numa iniciativa como esta, para promover inovação, pesquisa e desenvolvimento, a ciência é a ponte que nos une e onde encontramos os pontos em comum”, disse Farrar, que também é presidente do Comitê Consultivo da Coalizão.
Jornalista: Daniela Rangel
Imagens: Júlia B. Reis e Walterson Rosa/MS

