A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), através do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), assume um papel de protagonismo internacional no lançamento do projeto ACT-CHIK (Accelerating Clinical Trials for CHIKungunya Vaccine in Africa). O vice-diretor de Inovação de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Hugo Defendi, participou do evento no dia 9 de junho, na Universidade de Ruanda.

Coordenada pelo Institut Pasteur e financiada com €15,3 milhões pela parceria europeia Global Health EDCTP3 (programa Horizon Europe), a iniciativa de quatro anos visa avançar o desenvolvimento clínico de uma vacina contra a chikungunya e estruturar sua fabricação local no continente africano.

Como membro estratégico da Rede Pasteur, Bio-Manguinhos/Fiocruz utilizará sua robusta infraestrutura e reconhecida competência industrial para preparar os materiais dos ensaios clínicos (processo de fill & finish / envasamento e acabamento) e transferir seu amplo conhecimento em fabricação de vacinas para o Institut Pasteur de Dakar (IPD), no Senegal, único fabricante do continente pré-qualificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)

O objetivo principal é de desenvolver este imunizante para a África, podendo, também, ser uma excelente alternativa nacional, pois a população brasileira ainda é muito acometida por esse agravo. "A participação de Bio-Manguinhos no consórcio ACT-CHIK consolida o papel estratégico da Fiocruz na saúde global e fortalece uma cooperação histórica que mantemos com o continente africano. Assumir a responsabilidade pela produção dos lotes clínicos para este estudo é o reflexo do reconhecimento de nossa capacidade em produzir vacinas e responder a problemas de saúde pública, como é o caso da Chikungunya que continua impactando a vida de milhões de pessoas. Mais do que fornecer o material para os testes, estamos entusiasmados em compartilhar e colaborar com o Instituto Pasteur de Dakar, através da transferência de conhecimentos dos processo produtivos que iremos desenvolver em Bio-Manguinhos. O nosso objetivo final é impulsionar a construção conjunta de soluções sustentáveis, como a autonomia fabril da África para esta potencial vacina, e assegurar que populações vulneráveis tenham acesso equitativo a imunizantes contra doenças negligenciadas", destacou Hugo Defendi.

Cooperação histórica e combate a doenças negligenciadas
A participação da Fiocruz no consórcio reforça a atuação de Bio-Manguinhos no enfrentamento de emergências sanitárias e doenças negligenciadas. Em 2016, o Instituto foi crucial no controle do surto de febre amarela na África, colaborando com a OMS para ampliar o acesso a vacinas por meio do fracionamento de doses. No mesmo ano, diante da emergência de arboviroses no Brasil, demonstrou alta capacidade de resposta ao desenvolver e obter registros na Anvisa, em tempo recorde, de testes rápidos e moleculares para chikungunya, dengue e zika.

Como produtora mundial da vacina de febre amarela (atenuada), a instituição atende à demanda do Ministério da Saúde brasileiro e exporta o imunizante há 25 anos. Por meio de agências das Nações Unidas (OMS, Unicef e OPAS), Bio-Manguinhos já levou a vacina a mais de 75 países. Nos últimos cinco anos, mais de 54 milhões de doses foram fornecidas globalmente via agências internacionais, consolidando esse forte laço com a população africana — apenas em 2024, 16,5 milhões de doses foram exportadas para quase 20 países.

Essa sólida experiência apoiará o ACT-CHIK no avanço da vacina MV-CHIK — uma plataforma recombinante viva atenuada baseada no vírus do sarampo (cepa Schwarz), originalmente desenvolvida pelo Institut Pasteur de Paris. Ensaios de Fase I e II na Europa, EUA e Porto Rico com cerca de 600 adultos já comprovaram sua segurança e imunogenicidade. Agora, o consórcio realizará o ensaio de Fase Ib/III em Ruanda, Quênia, Nigéria e Senegal, envolvendo 940 participantes de 5 a 55 anos (incluindo crianças e adolescentes).

Impacto global e autonomia africana
hugo vacina chikungunya 2 peqA chikungunya, transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, gera graves impactos à saúde pública com sintomas debilitantes, como dores articulares severas crônicas. Diante da expansão dos vetores gerada pelas mudanças climáticas, o projeto não foca apenas na avaliação clínica, mas também em construir uma infraestrutura sustentável e um caminho regulatório para licenciamento e pré-qualificação da vacina junto à OMS.

Dessa forma, o ACT-CHIK apoia de forma direta a meta da União Africana de produzir localmente 60% das vacinas demandadas pelo continente até 2040, combatendo a falta de ensaios clínicos ativos em regiões afetadas e mitigando a desigualdade global de acesso a imunizantes.

"A chikungunya continua sendo uma doença negligenciada na África, apesar do seu fardo crescente. O ACT-CHIK representa uma oportunidade única de gerar dados clínicos críticos nas populações que mais precisam desta vacina, ao mesmo tempo em que constrói as bases para a fabricação regional de vacinas no continente. Este projeto reflete o compromisso do Institut Pasteur em traduzir sua pesquisa em soluções concretas de saúde pública para as populações mais vulneráveis”, afirmou Dr. Sotiris Missailidis, Coordenador do Projeto ACT-CHIK no Institut Pasteur.

"Como líder do pacote de trabalho de liderança científica dentro do consórcio pelos próximos quatro anos, a Universidade de Ruanda assumirá a gestão da governança científica e da liderança estratégica para avançar na fabricação de vacinas e no acesso equitativo, reforçando assim os ecossistemas regulatórios e de fabricação da África. Estou ansioso para contribuir para a geração de dados clínicos robustos e baseados em evidências, e para liderar a introdução de uma plataforma de vacina inovadora adaptada às realidades epidemiológicas da África. O rigor científico e a inovação contextual aumentarão a preparação contra a chikungunya e o controle de surtos na África, consolidando o ACT-CHIK como uma pedra angular na agenda mais ampla de fabricação e acesso a vacinas na África sob a visão 2040 do Africa CDC”, destacou Prof. Leon Mutesa, Co-Líder Científico do Projeto ACT-CHIK na Universidade de Ruanda.

Jornalista: Gabriella Ponte
Imagens: Acervo/Bio-Manguinhos

Alerta de cookies

Este site armazena dados temporariamente para melhorar a experiência de navegação de seus usuários. Ao continuar você concorda com a nossa política de uso de cookies.

Saiba mais sobre nossa Política de Privacidade clicando no botão ao lado.