Desenvolvimento tecnológico
O diagnóstico laboratorial da hantavirose é realizado por meio da detecção de anticorpos contra o hantavírus, que são produzidos pelo sistema imune dos pacientes para enfrentar o patógeno e aparecem no sangue logo após a infecção. Por isso, para identificar a doença, os exames devem conter proteínas virais que sejam capazes de se ligar aos anticorpos.´
Para compor o novo teste, cientistas do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz selecionaram a sequência genética de uma proteína viral, chamada de proteína do nucleocapsídeo, de dois diferentes hantavírus. A escolha considerou características dos microrganismos e da resposta imune dos pacientes.
"Contemplamos o hantavírus causador de síndrome cardiopulmonar nas Américas, que possui vigilância estruturada no Brasil, e o hantavírus responsável por casos de febre hemorrágica com quadro renal, que tem distribuição mundial e já foi descrito no território brasileiro, mas ainda não tem vigilância estabelecida no país. Isso torna o teste mais abrangente e amplia o leque do diagnóstico diferencial com outras doenças", afirma Renata.
Especialistas na produção de proteínas recombinantes, os pesquisadores Laboratório de Biotecnologia e Bioengenharia Estrutural do IBCCF/UFRJ realizaram a expressão, purificação e caracterização destas proteínas virais, utilizando bactérias para produzir as moléculas, como se fossem fábricas.
“Com essa metodologia conseguimos produzir as duas proteínas recombinantes com a estrutura tridimensional correta para serem identificadas pelos anticorpos que circulam no sangue dos pacientes infectados por hantavírus. Assim, elas podem ser usadas como um detector de anticorpos nos testes”, aponta Ronaldo.
Por meio de acordo de parceria, a UFRJ forneceu as proteínas e transferiu a tecnologia de produção para Bio-Manguinhos, unidade da Fiocruz que atua no desenvolvimento tecnológico e fabricação de vacinas, kits para diagnóstico e biofármacos.
A equipe da Fiocruz desenvolveu o kit para teste rápido, combinando as proteínas virais recombinantes e substâncias reagentes para possibilitar o diagnóstico em uma plataforma de fácil aplicação.
Produzido em boas práticas de fabricação, o produto conta com controle interno e estabilidade em temperatura de 2ºC a 30ºC, podendo ser armazenado dentro ou fora da geladeira caso a temperatura ambiente se mantenha nesse patamar.
Para avaliação de desempenho dos testes, a Fiocruz contou com colaboração dos Laboratórios Centrais de Saúde Pública do Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além da Fundação Ezequiel Dias, de Minas Gerais.
Após o registro na Anvisa, o kit foi disponibilizado para algumas unidades de saúde através de parcerias no contexto de atividades de pesquisa. Em Tangará da Serra, no Mato Grosso, por exemplo, um caso de hantavirose foi diagnosticado com aplicação do exame no começo de setembro.
“A Secretaria Municipal de Saúde nos informou que o resultado do teste rápido contribuiu para o melhor atendimento e a completa recuperação do paciente”, comemora Elba, observando que, de acordo com os protocolos vigentes, o resultado do teste rápido deve ser posteriormente confirmado no âmbito do serviço de referência.
Três lotes-piloto do teste rápido de hantavirose foram produzidos para solicitação do registro na Anvisa. “A partir da aprovação, Bio-Manguinhos tem capacidade para escalar a produção conforme as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS)”, ressalta Edimilson.
Alerta para circulação da doença
De acordo com o MS, a hantavirose ocorre em todas as regiões do Brasil, com maior concentração de casos no Sul, Centro-Oeste e Sudeste. De 2015 a 2024, foram 610 registros no país, com 232 mortes. Notificações preliminares deste ano somam 11 casos, incluindo 6 mortes.
As infecções por hantavírus ocorrem principalmente em áreas rurais, pela inalação de partículas virais liberadas na urina, fezes e saliva de roedores, que ficam suspensas no ar na forma de aerossóis. Os casos são frequentemente associados ao contato com ratos do mato, atividades agrícolas (por exemplo, limpeza de casas e galpões fechados, desmatamento, aragem da terra e plantio) e ecoturismo.
O quadro clínico inicial da hantavirose é semelhante a muitas doenças virais, incluindo febre, dor nas articulações, na cabeça e no abdômen, além de manifestações gastrointestinais, como vômito e diarreia. Com a progressão da doença, os pacientes podem apresentar também dificuldade de respirar, respiração e batimentos cardíacos acelerados, tosse e pressão baixa.
A coordenadora do Laboratório de Referência Regional para Hantaviroses aponta a necessidade de conscientização dos profissionais de saúde para identificar o agravo. "É comum que os casos de hantavirose sejam inicialmente tratados como se fossem dengue, o que aumenta a letalidade da síndrome cardiopulmonar por hantavírus. Para identificar a hantavirose, o médico precisa conversar com o paciente e descobrir se ele esteve em área com risco de transmissão de hantavírus”, alerta Elba.
Embora não exista um medicamento específico contra o hantavírus, o diagnóstico precoce da doença é fundamental para que os pacientes recebam o tratamento adequado, incluindo terapias para controlar os sintomas e medidas de suporte que podem ser decisivas para salvar vidas.
Fonte: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)
Imagem: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz

